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25/03/2013

aquecendo as mãos na xícara de chá

sinto que a última gota de qualquer coisa que havia no meu coração acaba de secar. finalmente o vazio virou nada. a flor de plástico não pulsa, não seiva, não saliva mais. viro os olhos para fora. a temporariedade da existência torna tudo ridículo: o bigode bem cortado, o pirão de peixe, o salto alto e o batom fúcsia. de concreto, só a fome. sete reais e cinquenta centavos de fome. de concreto, só o arroz e o feijão que brotam da terra, de onde tudo veio, para onde tudo vai. incansáveis, buscam consertar as coisas. agendas político ambientais, econômicas e sociais, como se houvesse luz no fim do túnel. é o que chamam de esperança por um futuro melhor, que ninguém aqui vai ver. e ainda põem a culpa em pandora. retiro a gordura da carne, sustentando a hipocrisia da boa alimentação, que ninguém sabe qual é. um dia é o tomate e o azeite, no outro, o ovo e o chocolate. disseram certo, somente a beleza salvará o mundo, mas a beleza está nos olhos de quem vê, e por aqui estão todos cegos com suas convicções de pedra, quando na verdade, tudo não passa de nuvem.

04/05/2012

descobri onde você guarda seus segredos

bem ali,
onde os olhos fazem a curva,
onde o dente se esconde,
na esquina do sorriso,
na sombra do pelo,

na dobra,
na pinta,
no poro,

no cheiro sem memória,
no silêncio de estátua,

25/04/2012

até o coração parar de bater

explosions in the sky. escuta, a noite fria como o vento do mar. os olhos turvos de sonho. tudo é luz e movimento. tudo é dente, loucura e tempo. é vida acontecendo. correr, correr, correr. ficar na boca da água e sentir o cheiro da tempestade. amar, amar, amar. nascer e morrer várias vezes no mesmo dia para sempre. repetir, recomeçar.

23/10/2011

o jantar

ligou o fogo
cortou alho e cebola
separou os temperos
escolheu o vinho

naquela noite serviria em grande estilo!
o prato principal: seu coração.

13/08/2011

pra salvar a alma

Uma Ira - Clarice Lispector

- "Esta" - se disse o homem ajoelhado como antes de ir para a guerra - "esta é a minha prece de possesso. Estou conhecendo o inferno da paixão. Não sei que nome dar ao que me toma, ou ao que estou com voracidade tomando, senão o de paixão. O que é isso que é tão violento que me faz pedir clemência a mim mesmo? É a vontade de destruir, como se para este momento de destruir eu tivesse nascido. Momento que virá ou não, a minha escolha depende de eu poder ou não me ouvir. Deus ouve, mas eu me ouvirei? A força de destruição ainda se contém um instante em mim. Não poso destruir a ninguém ou nada, pois a piedade me é tão forte como a ira; então eu quero destruir a mim, que sou a fonte dessa paixão. Não quero pedir a Deus que ele me aplaque, amo tanto a Deus que tenho medo de tocar nele com o meu pedido, meu pedido queima, minha própria prece é perigosa de tão ardente, e poderia destruir a mim e a imagem de Deus, que ainda quero salvar em mim. No entanto só a Ele eu poderia pedir que pusesse a mão sobre mim e arriscasse queimar a Dele. Não me atendas porque meu pedido é tão violento que me atemoriza. Mas a quem pedir, neste rápido instante de trégua, se já afastei os homens? Afastei os homens, fui fechando as doçuras de minha natureza a cada golpe que recebi, e as doçuras negadas foram se enegrecendo como nuvens simples que vão se fechando em escuridão, e eu abaixo a cabeça à tempestade. Como seria a ira divina, se esta minha me deixa cego de força total? Se esta cólera só destruísse a mim. Mas tenho que proteger os outros - os outros tem sido a fonte de minha esperança. Que faço para não usar esta onipotência que me toma? o que me direi eu? Senão a verdade, senão a verdade. Só outra coisa eu conheci tão total e cega e forte como esta minha vontade de me espojar na violência: a doçura da compaixão. Só isto ainda posso tentar por no outro prato da balança - pois no primeiro prato está o sangue e o ódio ao sangue e o riso ao sangue que dói. Que estou querendo? Quero que a cada uma de minhas dores corresponda hoje e agora um ato de cólera.

"Mas eu sei o que foram as minhas dores. A cólera, é fácil expô-la. Mas a dor, esta me envergonhava. Porque minha dor vem de que não saí feliz de meus outros pecados mortais. Minha violência - que é em carne viva e só quer como pasto a carne viva - esta violência vem de que outras violências pecadoras que se pareciam tanto com um direito meu... No começo elas se pareciam tanto com minhas maiores suavidades. Eu tinha nascido simplesmente e também simplesmente quis ir tomando para mim o que queria. E a cada vez que não podia, a cada vez que era proibido, a cada vez que negavam, eu sorria e pensava que era um manso sorriso de resignação. Mas era a dor que se mascarava em bondade. Eu sabia que era dor errada diante de Deus, e, pior, diante de mim, quem quer que eu seja. Cada vez que meus pecados não venciam, eu sofria, mas sem me sentir com direito de sofrer, e tinha que esconder não apenas a dor, mas sobretudo o que causara a dor. O que estava sendo pisado em mim? na minha verdade de outrora, que estava sendo pisado em mim? Os pecados mortais.

"Os pecados mortais chamavam em mim por mais vida, e clamavam com vergonha, os pecados mortais em mim pediam o direito de viver. Minha gula pelo mundo: eu quis comer o mundo, e a fome com que nasci pelo leite, essa fome quis se estender pelo mundo, e o mundo não se queria comível. Ele se queria comível, sim, mas para isso exigia que eu fosse comê-lo com a humanidade com que ele se dava. Mas a fome violenta é exigente e orgulhosa, e quando se vai com orgulho e exigência o mundo se transmuta em duro aos dentes e à alma. O mundo só se dá para os simples, e eu fui comê-lo com o meu poder e já com esta cólera que hoje me resume. E quando o pão se virou em pedra e ouro aos meus dentes, eu fingi por orgulho que não doía, eu pensava que fingir força era o caminho nobre de um homem e o caminho da própria força. Eu pensava que a força é o material de que o mundo é feito, e era com o mesmo material que eu iria a ele. E depois foi quando o amor entrou pelo mundo e me tomou: e isso já não era a fome pequena, era a fome ampliada. Era a grande alegria de viver - e eu pensava que esta, sim é livre. Mas como foi que transformei, sem nem sentir, a alegria de viver na grande luxúria de estar vivo? No entanto, no começo era apenas bom e não era pecado. Era um amor pelo mundo quando o céu e a terra são de madrugada, e os olhos ainda sabem ser tenros. Mas eis que minha natureza de repente me assassinava, e já não era uma doçura de amor pelo mundo, era uma avidez de luxúria pelo mundo. E o mundo de novo se retraiu, e a isso chamei de traição. A luxúria de estar vivo me espantava na minha insônia, sem eu entender que a noite do mundo e a noite do viver são tão doces que até se dorme, meu Deus. E a água, na minha luxúria de viver, a água se derramava pelos dedos antes de chegar à boca. E eu amava o outro ser com a luxúria de quem quer salvar e ser salvo pela alegria. Eu não sabia que só o meio-termo não é pecado mortal, eu tinha vergonha do meio-termo. Os pecados são mortais não porque Deus mata, mas porque eu morro deles. Eu é que não pude arcar com os pecados mortais. O que não consegui com eles, é isso o que hoje me violenta e a que respondo com violência. Os meus pobres meios canhestros não me conseguiram nem terra nem céu, e a fúria me toma. Ah, mas se por um instante eu entender que a fúria é contra os meus erros e não contra os dos outros, então esta cólera se transformará nas minhas mãos em flores, em flores, em coisas leves, em amor. Eu ainda não sei controlar meu ódio, mas já sei que meu ódio é um amor irrealizado, meu ódio é uma vida ainda nunca vivida. Pois vivi tudo - menos a vida. E é isso o que não perdoo em mim, e como não suporto não me perdoar, então não perdoo aos outros. A este ponto cheguei: como não consegui a vida, quero matá-la. A minha cólera - que é ela senão reivindicação? -  a minha cólera, eu sei, eu tenho que saber neste minuto raro de escolha, a minha cólera é o reverso de meu amor; se eu quiser escolher finalmente me entregar sem orgulho à doçura do mundo, então chamarei minha ira de amor. Tanto temi jurar-me para sempre com essa primeira palavra que mal ouso pronunciar (amor), que fugi para a violência e para os olhos ensanguentados da paixão. Tudo, tudo por medo de me prostrar aos Teus pés e aos pés anônimos do "outro" que sempre Te representou. Que rei sou eu, que não se curva? Tenho que escolher entre a quebra do orgulho e o amor-correnteza da ignorância e da doçura. A minha verdade antiga ainda me serve? Deus proibiu os sete pecados não por exigência de perfeição, mas apenas por piedade de nós, de mim que, como os outros, também tento não ser Dele e tento não ser dos outros, e eu sei que os outros são Ele. Neste instante tenho que escolher entre amar ou ter ódio. Sei que amar é mais lento, e a urgência me consome. Cobre minha fúria com o Teu amor, já que também eu sei que minha ira é apenas não amar, minha ira é arcar com a intolerável responsabilidade de não ser uma erva. Sou uma erva que se sente onipotente e se assusta. Tira de mim a falsa onipotência destruidora, não deixa que a ferida que abriram em mim signifique ferida aberta por Ti, faz com que neste instante de escolha eu entenda que aquele que fere está no mesmo pecado que eu: no orgulho que leva à ira, e portanto ele fere assim como estou querendo ferir só porque não acredita, só porque não confia, só porque se sente um rei espoliado; ajuda aos que sofrem de ira porque eles estão apenas precisando se entregar a Ti. Mas como Tua grandeza me é incompreensível, faz com que Tu te apresentes a mim sob uma forma que eu entenda: sob a forma do pai, da mãe, do amigo, do irmão, da amante, do filho. Ira, transforma-te em mim em perdão, já que és os sofrimento de não amar."

27/07/2011

choses du coeur

essa paz que não se sabe d'onde vem nem pronde vai. é amor ou não mais amor? é silêncio? é noite? pasmaceira corpo sono tepidez, coisalma parada. faltânimo. e esse querer ser outra coisa que não sei se sou. procura-se-me. procura-se-me essa coisamor. coisa coração é coisa indomada.

19/06/2011

sonhos não, fome de mundo

ouvi uma música que me dá vontade de ser amor puro. de me abrir em luz, rasgando pele, cegando mundo. vontade de seguir uma diagonal de déboulés infinitos no boulevard de chenonceau, de correr como maria antonieta pelos corredores de versailles ou ainda de mergulhar lentamente naquele rio gelado onde virginia woolf pensou uma última vez. quero ver todos os filmes, ler todos os livros, ouvir todas as músicas, escrever todos os poemas, morar em todas as cidades, ser todos os personagens, viver todas as histórias, ter todos os amantes, e um só grande amor pra sempre.

04/06/2011

caber-se

quanta dor cabe num corpo? quanta dor? um só corpo. quanta dor! quanta fome cabe num estômago? quanta? e no coração? quanta fome no coração? quanto amor! é tanto, é muito, é demais. é quase nada. tudo no mesmo coração. tudo no mesmo estômago, no mesmo corpo, na mesma carne. quantas idéias erradas cabem num cérebro? um só cérebro e todas aquelas idéias erradas. várias idéias erradas, infinitas idéias erradas, infinitos amores certos e errados, infinitas fomes e dores, certas e erradas. quanto. muito! quanto... nada? em cada pedacinho, cada célulinha, um ponto de dor, de fome e de todas, muitas, sempre, infinitas e retornáveis outras coisas que esse corpo é capaz.

11/01/2011

pleonasmo

todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas         e eu       essas palavras todas essas palavras todas         no meio      essas palavras todas essas palavras todas      tentando     essas palavras todas essas palavras todas  me reencontrar  essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras todas essas palavras....

29/12/2010

feliz ano novo

faltam menos de 50 paginas pra eu te esquecer. e se, por um raio de tempo, eu desabotoar em cor? ontem chorei em silêncio no quarto escuro. chorei pelo passado que não foi, pelo presente que não é, pelo futuro que não sei. quando vi aquela pilha de cadernos a serem usados, e aquela pilha de livros a serem lidos, senti uma vontade enorme de dormir. tive medo de fechar os olhos: os fantasmas que guardo em mim gostam da escuridão da mente. mas, e se, por um raio de luz, eu desbotar em flor? o livro foi se despedaçando em minha mão, e meus cabelos borbulharam como os de sierva maria. como o champanhe, estourando ao ritmo da música. e cada explosão, de cada bolha, de cada nota, todas cheias de dentes, me fez acreditar naquela única promessa, tão simples, e tão complexa. de tudo aquilo que só faz sentido na minha cabeça, só vou guardar a loucura.

01/12/2010

FNX

e depois de um ano, depois do vazio, da eterna negação, eu volto. com a pretensão da fenix. com a obsessão de sempre. sem tempo. com vontade. sem assunto. ouvindo uma musica que me da vontade de correr. pensando em discussões maiores que nossa era. querendo abraçar o mundo, perdoar e amar de novo. mas o frio na minha barriga não me deixa nem terminar esse parágrafo.