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08/08/2013

journal FXXIV

penso no desregramento, busco meu perdão, mas a uva sussurra no meu ouvido: ...  desejo  ...  é sierva maria que está ao meu lado. cavo a fruta com o dente verde. goza a gota de veneno, goza a língua, cada vez mais molhada. penetra lentamente, fura a carne, desmancha a boca. carlos estaria orgulhoso. 

foi o vento trazendo flores queimadas em delírio, esse vento que leva ao esquecimento, que sopra em direção ao mar, que me trouxe de volta do mergulho profano. mas era o afogamento nas idéias que me faltava. escrevê-las é a minha redenção.

sonhei que nadava com minha mãe em um rio de crocodilos, que dentro do saco de comida se instalavam milhares de casulos de vermes gordos, que pintava flores em tela e corpo. éramos amantes perfeitos. os óculos se quebravam em um abraço, e os olhos abriam de saudade.

caminhei pela ilha deserta em busca de uma praia perdida. um coelho branco me mostrou o caminho. encontrei um pedaço d'água. lavei meus pés do pecado, mas a videira vingava no meu coração, tinha sede. molhei o corpo até a barra do vestido, depois sentei-me em uma pedra para secar: o sal conservaria as idéias. deixei que o mesmo vento que vencia as borboletas me levasse de volta para casa.

estava meio assim, mas enchi de graça com a praça vermelha. praça do sol deveria ser seu nome. enquanto a pedra ardia, a água era azul cor de olho, as mulheres tinham o corpo livre, e os palhaços beijavam mãos vazias. lugares lindos transformam terças feiras em sábados. foram tantos cheiros... porque tantos cheiros? viajei com cleópatras e angélicas. o amor me acompanhou, venceu fronteiras agarrando-se na janela de um trem.

o terço pendia do pescoço da mulher de gordos seios. era a fé que penetrava nos recônditos da carne. mesma carne essa que sonhava o vitrinista ao vestir o manequim. mesma carne essa que envenenava meu dente.

a subversão trouxe a menina vestida de céu. eu poderia passar horas contando as estrelas de seu corpo. cheirava a lavanda e a papel. voltou, abriu o livro, abriu o olho: a cidade que lhe falta não existe. é feita de saudade, tem cheiro de chuva e cor de tempo. está dentro dela. é uma quimera.

14/01/2013

journal FXVII

journal ontem, journal hoje, journal sempre


21/12/09
Ois people,

Aqui no RU da cité universitaire por vezes tem uns mendigos que almoçam. Não são esses mendigos bebados do metro, são uns velhos de muleta com sacolas, que vira e mexe estão por lá. Hoje me sentei ao lado de um deles, sabendo das possibilidades de uma puxada de conversa. Dito e feito. O sr já me desejava um bom apetite. Aqueles assuntos básicos, de onde eu era, o que eu fazia. Deu sua opinião sobre o cinema, disse que antigamente ia muito à cinemateca. Gostava de Buñuel. Disse que se ganhasse na loteria iria pro Brasil ver a copa do mundo. Neve na Espanha, o bom clima das Ilhas Canárias, contou sobre sua família, voltaram todos para a Espanha. E ele ficou. Sozinho. Quando apertei sua mão na despedida, estava de luvas. Me arrependi de não ter tirado antes para sentir a pele grossa e velha. Senti que meu aperto de mão enluvada deixava ele na mesma solidão que a de 30 minutos antes. Um toque sem tato.

A maioria dos doidos de Paris não passam de pessoas carentes de atenção. O frio e a cultura afastam os corpos e as almas umas das outras. Todo mundo aqui é carente em algum nível. Ninguém se abraça, ninguém se tem. Os mendigos são só mais alguns sozinhos no mundo. Talvez só um pouco a mais do que os outros. Uma vez eu estava no ônibus e sentou uma doida do meu lado. Alguma coisa em mim atrai os doidos, acho que é o cabelo. Eles olham pra mim e já vem pra perto conversar. Então, uma vez eu estava no ônibus e sentou uma doida do meu lado. Ela gritava coisas com um sotaque africano pesado. Não conseguia entender muito. Começou a falar comigo. E falava, e falava... falou de psicóticos, e de mais num sei o que, que eu só entendia quase nada, balançava a cabeça concordando sempre, sorria de vez em quando. Depois que ela teve seu minuto de atenção, começou a me agradecer de um jeito tão sincero, e até constrangedor, porque eu não entendia o que tinha feito por aquela mulher. Pegou na minha mão, beijou e agradeceu mais uma vez. As pessoas são muito sozinhas nesse mundo.

No RU daqui da cité também tem um passarinho. Um pardal. Ele ficava sempre olhando pra fora da janela piando triste. Piiiiuuuuu piiiiuuuu. Numa solidão! Ficava preocupada por ele. Achei ainda que ia morrer de depressão. Até que n'outro dia tinha mais um pardalzinho por lá. Me tranquilizei. O tempo passou, um deles engordou. Agora sentam os dois, cada um de um lado da janela, olhando pra fora e piando triste. Piiiiuuuuu piiiiiuuuu piiiiuuuuuu piiiiiuuuuuu.

Semana passada eu tinha ido muitas vezes sozinha ao cinema. O cinema é sempre um lugar problemático para os casais ou grupos de amigos, porque sempre sobram cadeiras sozinhas pingadas pela sala. As pessoas, no seu minuto fóbico, pulam uma a cada outra desconhecida. Assim, numa mesma fileira temos 3 cadeiras, uma em cada canto, separando as pessoas - tanto as já sentadas, como as que gostariam de se sentar. No final, a sala escura acolhe todos os solitários, e a tela viva faz esquecer que somos pingos de solitude, aqui e ali, e que a pessoa ao lado também está sozinha.

Nesse fim de semana não fui nenhuma vez ao cinema. Fiquei trabalhando, tentando escrever coisas que fizessem sentido, afundada em pilhas de papel, livros, etc... Quer dizer, como salvei esse email no rascunho para continuar escrevendo ao longo da semana, essa frase já está errada. Fui hoje no cinema ver Max and the Maximonsters. Um filme estranho, meio deprê, meio amedrontador, mas bonito ao mesmo tempo. Falava de um menino que se sentia sozinho. Agora também já estou de férias, ou melhor, fericas, até o dia 4, quando sigo algumas provas. A próxima pausa é em fevereiro. Aqui o ano escolar é picotado em fericas.

Essa semana também nevou. Era o que faltava para o natal. Só que no primeiro dia em que nevou eu estava 1 hora atrasada para um compromisso, então meu primeiro contato com a neve em 5 anos pode ser resumido no medo de escorregar e cair (porque eu corria loucamente) e no frio. Levei muita nevada na cara. Cheguei no compromisso sem conseguir nem falar. No final das contas deu tudo certo, cortei meu cabelo, fiz até penteado, e no final do mês chega um dinheirinho pelo correio. Não, papai noel não mudou de método, é que eu passei num casting mesmo, para a Schwarzkopf. Eu vinha tentando sem sucesso já fazia alguns meses, até que minha sorte deu uma virada e eu passei em 2 seguidos! Fotos no orkut.

Sexta teve festinha de aniversário de um amigo do Clement. Sentei na mesa com as mulheres. Depois de um tempo contando sobre minha vida (a única coisa que se faz em eventos sociais) fui tentar furar a rodinha dos meninos. Depois de um minuto a rodinha se desfez. Voltei para o grupo feminino, conformada, desta vez no sofá. O apartamento era um luxo. Preguei os olhos numa gravura. Reconheci o traço, mas não quis acreditar. Firmei o foco e lá estava o nome, inconfundível, Picasso.

Sábado teve festinha aqui em casa. Saquei minha super lista de contatos do celular. Contei 19 pessoas. Destas fazia sentido chamar umas 8. Nossa, uma super festinha! Só que 2 viajavam, 3 deram um bolo (ou como eles dizem por aqui - no melhor portucês, ou ainda franguês: "puseram o lapan". pra quem reclama a língua verdadeira e original, antigamente reconhecida como a dos nobres, a expressão vira "poser le lapin"), voi-là! No final é tudo bolo pra gente. Ainda assim, com meus 3 convidados resistentes, bebemos 2 garrafas de vinho (como os bons franceses que secam garrafas e garrafas em minutos), um gole para cada da boa e velha xiboca, que era presse povo conhecer a boa mistureba brasileira, e ainda um copinho de caipirinha*. Aí tivemos que parar por causa da hora e dos transportes. Descendo as escadas com a Moldaviana** convidada, ela me dá o prazer dizendo "Essa bebida que você me deu me deixou uuu!" Haha genial! A outra convidada era a vizinha brasileira, então não conta, e a terceira era uma francesa dorminhoca, que quase dormiu no sofá, mas estiquei a cama e, segundo ela mesma, "dormiu como um bebê". Acho que o saldo foi positivo.

Hoje estou aqui, passando frio e fome. Mamis viajou e a casa está vazia. De pessoas e de comida. Estou vivendo a base de madeleines (bolinhos), bananas e suco de laranja. Ainda bem que ela chega amanhã!

Essa semana, como a neve já anunciou, também é o natal! E como não é preciso ser nem mendigo nem passarinho para ser sozinho, aqui em casa vamos ter a ceia dos desmamados, ou ainda, a ceia dos despatriados. Uncle vem com Vitor John representar a família; Zé; Mamis; Eu; Aí tem a filha duma amiga da minha tia (que esse mundo ovico fez questão de me cruzar no caminho); E talvez um colega da aliança francesa (que esse mundo ovico também fez questão de me cruzar no caminho)... Todo mundo acolhido no natal dos abandonados. Minha contribuição para a ceia foi a farinha (da futura farofa) e o guaraná! Sim, em Paris também tem guaraná, o original do Brasil, na lojinha "Coisas do Brasil" mais próxima da sua casa! Quanto ao ano novo, o plano é que os amigos do Clement me acolham. Era eu a desmamada, abandonada, despatriada, sem amigos, nem programação, contando minha miséria para as meninas do sofá, quando elas se comoveram, e fizeram questão de me incluir nos planos da virada parisiense (que pelo jeito não é a melhor do mundo, por incrível que pareça).

Bom, então, pra não me prolongar muito, já me prolongando um pouco mais, ficam nessas linhas os meus votos natalinos para todos vocês, meus queridos amigos! UM LINDO NATAL, CHEIO DE LUZINHAS, PRESENTES, COMIDA BOA, CALOR, AMIGOS E FAMÍLIA POR PERTO! Para o ano novo, como a saída do journal agora é um mistério, ficam meus votos de MUITA SAUDE, ALEGRIAS E REALIZAÇÕES EM 2010! E agora vem a frase final de declaração que é pra terminar o email no clima da partilha dos sentimentos, no clima de comunhão, porque a verdade é que aqui ninguém é passarinho, nem mendigo, nem sozinho nesse mundo nevento.

Um grande beijo cheio de saudades pra todos! Amo muito vocês! E se não antes, até o ano que vem!!!

Ps*: pai, eu não sou alcoolatra.
Ps**: quem mais não sabia da existência da Moldávia? _o/

04/12/2012

journal FXVI

quando o aqui presente não promete, a gente foge pro lugar nenhum do sempre (ou do nunca?) que é a saudade


05/12/09
Ois gerais,

Quantas vezes uma pessoa pode ir ao cinema em um dia? E em uma semana? A minha inspiração não é uma pomba branca que vem do mar, mas uma coruja velha atarraxada no galho seco de uma árvore, que só abre um único olho e faz « u-u » à 1h da madrugada. Quando não às 3!

Nesses tempos sem notícia muita água já rolou. Sim, quem não dá notícia agora sou eu, invertamos um pouco os papéis. Uma vez eu fiz um teste numa revista pra ver se eu sabia discutir a relação. Tirei quase 10. Um dos itens era saber criticar o outro criticando a si próprio. O ó. Faz duas semanas que eu só sei falar o ó pras coisas. Boas e ruins. Tudo começou com Twilight 2 capítulo Tentação que eu fui ver com a Karina no cinema mais brega de Paris (Champs-Elisée). Foi o ó de divertido. Rimos até chorar do pobre do filme. Aí a moda pegou (tanto de falar o ó, quanto de falar durante o filme). Semana passada fomos ver O Bazar. Ta disputando o top3 piores filmes da minha vida. Acho que Hulk ainda tem o cinturão invicto do primeiro lugar, mas fazia tempo que eu não via uma coisa tão ruim daquelas. Não conseguia parar de rir (pra não chorar). Até levei um chute da menina que queria dormir ao lado e não conseguia com as nossas risadas. Foi o ó da experiência cinematográfica! No mesmo dia fui ver um filme d’uma israelense. Prendre Femme o nome do filme. Ronit Elkabetz o nome da israelense. Roteirista, diretora e atriz. E que filme bom! E que mulher linda! O ó. Fazia tempo que eu não via uma mulher daquelas. O filme foi tão bom, e a mulher tão bonita, que eles conseguiram vender todos os ingressos do outro filme dela que passou no dia seguinte (a segunda parte da trilogia, cuja terceira ainda não foi realizada). Sept Jours o nome do filme. O ó de bom também. Hoje, para completar minha semana Tela Quente, eu fui ver The Limits of Control e Vincere. O primeiro é interessante. Bem à la Jim Jamursch. Dormi 3 vezes. O resto do cinema também. Nas horas em que eu estava acordada fiquei contando os que dormiam. Hehe. O segundo é bom. Mas pareceu querer abraçar o mundo com 4000 metros de filme. Saí da sala com a cabeça pesada. Cheia de idéias. Não para o meu trabalho (que era tudo que eu precisava nesse momento), mas para o journal e para o roteiro. Aquele eterno roteiro que eu escrevo e reescrevo há 2 anos. Será que um dia ele sai de mim? Ou será que um dia eu saio dele? Ideias mil que chega me dá preguiça de começar a esboçar. Acho que quando terminar o journal já vou estar com tanto sono que vou esquecer todas.

Nessas águas que rolaram muito tempo sem notícia também boiou Lyon. A viagem foi ótima. Me colocaram numa cabine de trem Zen. Levei um livro (acreditando no poder do estudo), mas lá, assim como no filme do Jim Jamursch, todo mundo dormia. Êta que dava um sono ver aquele povo dormindo… e era inútil lutar contra, todo mundo se rendia no final, com o livro aberto no colo, ou o jornal aberto na mesa. Ouvindo música, ou assumidamente de boca aberta mesmo.

Lyon é uma Paris com jeitinho de Florença. Uma boa mistura. Matei minhas saudades de televisão na casa do Étore. Foi o programa da noite de sábado e de domingo! Televisão com vinho e azeitonas. Chique. Também visitei o museu de tecidos (o ó de bom) e o de cinema (a casa e a fábrica dos Irmãos Lumière). Isso tudo entre outros passeios bem gostosos pela cidade e pelo teatro romano que tem lá. Fotos no Orkut.

Também boiou a despedida da Kameni. Confesso já sentir falta da minha companheira de fim de semana. Vide minha dupla ida ao cinema numa sexta feira a noite. Quanto à escola, apresentei um trabalho na terça. Vou apresentar outro na próxima terça e outro na outra próxima. Aí só tenho prova em Janeiro. 

Quanto à saude e à beleza. Assim que cheguei de Lyon briguei com uma gripe. Fiquei de cama uns dias. Melhorei. Daquele jeito Julia né. Como diria Lais, eu não fico doente, eu sou doente. Já a beleza foi atacada pela Síndrome de Noel. A Síndrome de Noel é uma coisa não especificada que deixa a gente decorada para o natal. Cheia de bolas vermelhas na cara. Semana que vem vou no médico.

Ah sim, antes que eu me esqueça. Foi lindo chegar em casa e descobrir cartinhas em cima da minha cama! Obrigada queridos, amei! As devidas respostas virão. A cada três palavras que escrevo, penso numa das ideias mil. Tenho que correr com os dedos antes que a memória se canse de brincar. Mas para não perder o ritmo, fica mais uma diquinha de filme: O Concerto. Bem leve e divertido. Eu sei que tem mais pra falar, mas tem aquele velho problema… lembrar o que!

Bisoux,

Ps: Nossa, revisando mal e porcamente agora, como eu fui repetitiva: é filme pra lá, filme pra cá, o ó prali o ó aqui! Credo. Desconsiderem a pobreza da escrita. Ainda bem que eu não tento fazer rimas.

30/11/2012

journal FXV

hoje, revirando alguns papéis,


19/11/09

Ois saudosos,

O journal de hoje vai mesmo só pra ir, apenas com os relatos superficiais na medida do físico. Tudo porque o tempo não pára. Sábio Cazuza. Aqui já é tarde e amanhã cedo parto en voyage para Lyon.

De curiosidades essa semana teve a exposição de jóias do Dali. Valeram as esculturas em bronze e as ilustrações; valeu descobrir sua religiosidade e seu amor incondicional pela sua mulher Gala; valeram algumas frases de efeito como "as jóias deveriam ser inutilisáveis", e ver uma xícara que foi projetada para não ser usada. Também fui numa exposição de um homem que descobriu a cor na tinta preta. A ideia era até boa e funcionou em muitos casos, mas depois que fiz as contas e percebi que ele passou 50 anos da vida dele produzindo a MESMA coisa, lembrei do Picasso e fiquei com preguiça. Também teve uma exposição de fotografias dos surrealistas que foi bem legal. Eram umas fotos mais experimentais, mais íntimas da vida dos famosos, e de outros nem tão. Também teve o de sempre: cinema. Benditas carteirinhas motivadoras. Também teve o de nunca: museu da historia de Paris. Valeram os quadros que retratam o início da construção da cidade. Paris também já foi mato, já foi interior, já foi nada. Também teve o showzinho de blues e folk. Era num lugar meio buraquento, mas bem tranquilão. Para os curiosos /marioncorralesmusic  e /heygarçons. Também tinham outras tantas coisas que eu queria contar, como a dança da sombra das árvores nas fachadas dos prédios e as folhas passarinho, mas também tem o tempo, que não pára. 

Entón vos deixo, com a música latejando muda na cabeça.

Bisous

24/11/2012

journal DII, journal FXII


os dois reflexos estavam de costas um para o outro. as pessoas foram ficando pelo caminho, deixando os dois cada vez mais a sós.

o quarto trem foi musical. vim sentada ao lado de um descendente de viking. seus traços eram suaves, tinha a delicadeza de uma pluma. a carreira de bárbaro definitivamente não lhe cabia.

o zíper da bolsinha da senhora estava quebrado: punctum. janis joplin me dava vontade de saltar do vagão em movimento e sair correndo pelos campos. campo, campo, campo, casinhas de telhado vermelho amontoadas em volta de igrejinhas pontudas e simpáticas. é isso a alemanha.

em stuttgart eu me apaixonei três vezes, uma por uma mulher. esses meus amores de verão... passam na minha frente tão rápido quanto as férias. um deles ainda olhou para trás. eles vem, roubam meu coração com sua beleza e vão embora, levando a minha história de amor junto com eles.

a inocência tem som de risada de criança. os pequenos cantam sem vergonha do mundo. onde é que nos perdemos?

os carrinhos amassados eram brinquedos velhos amontoados num canto qualquer.

o homem sem dentes lia sem atenção um livro sobre artes marciais. tinha os olhos azuis de um louco.

o quinto trem foi um avião. dor e sofrimento são duas coisas diferentes.

paris fez bater um sentimento forte de mundo. são tantas pessoas, tantas vidas, tantas histórias andando pra lá e pra cá... é quase insuportável imaginá-las acontecendo.

paris também me fez pensar sobre o tempo parado e o tempo que muda. quem é que decide? depois de dois anos longe, esperava um reencontro cheio de angústias e saudades. de silêncios e fantasmas. de dentes. mas era como se eu nunca tivesse partido, como se eu tivesse a cidade inteira dentro de mim e nada mais me fosse misterioso, por mais segredos que as ruas ainda me escondam, e eu sei que escondem. esperava inquietação, anseio, e foi tudo ao contrário, quase que sem brilho, pipoca. revirou toda a tripa do querer viver. ajna.

ce matin, j'ai appris que les amours imaginaires resteront toujours imaginaires. le silence par contre, est réel. il sera toujours là.

pensei que não se pode ter o azul, o amor e a beleza juntos. mas como escolher?

já de volta, assolada pelo sistema, esquecida das histórias, cansada e ainda inquieta, repenso minhas tripas. eu queria falar da beleza das pedras, que me rasga, e também das nuvens que me evaporam, mas eu mesma já não aguento mais tanto vidro, carne e pipoca. a cidade que me falta não existe. ela é feita de saudade, tem cheiro de chuva e cor de tempo. a cidade que me falta é como a minha história de amor.

14/10/2012

journal FXIV

tem que ver essa letra aí


07/11/09
Ois meus,

Ontem fui num teatro em que o personagem psicólogo fazia experimentos com a associação de palavras. Uma das associações era com a palavra mão. O que eu responderia se fosse submetida a uma experiência parecida? Hoje no trem, voltando dos dois filmes mais estranhos que eu já vi na vida, tinha um velho segurando uma mala. Olhei pra sua mão. Lembrei das associações da peça e das entrevistas que a Xuxa fazia. Pensei nas minhas respostas: mão - velhice; tempo - velhice; vida - morte; morte - medo. Desconfiei da repetição. Parei de pensar. "Cité Universitaire" a voz do trem soou. O que eu responderia se fosse Cité Universitaire? Casa? Estação? Chineses? Saí do trem e senti frio. Frio, talvez? Fui andando e vendo as pessoinhas ainda sentadas dentro do "conforto", esperando partir para seus devidos destinos. Fui olhando uma a uma e algumas me voltavam o olhar. Cada pessoinha sentadinha em uma cadeirinha. Pessoinhas para todos os lados. Quantos olhos me olhando! O trem começou a se mexer. As pessoinhas foram sumindo dentro do túnel e eu tive vontade de correr atrás delas. Depois veio a escada rolante. E o menino de capuz na minha frente. Ele fez um movimento estranho com a mão. Achei esquisito. Um minuto depois me peguei fazendo o mesmo movimento e ri: assim como eu, ele estava vendo se chovia. Não estava. Ainda cruzei duas vezes com ele antes de atravessar a rua. Senti uma gota fria coçar na minha bochecha. Depois uma na testa. Passei pelo portão tentando não esquecer tudo que havia acabado de ver. Todas aquelas pessoinhas, todas aquelas vidinhas, uma mais diferente, mais estranha, mais vazia que a outra. Quis correr pra chegar mais cedo em casa e colocar tudo pra fora. Precisava escrever, vomitar uma bola de pelo. Um minuto antes tinha reparado como os pombos são engraçadinhos. Alguém deveria fazer um estudo sobre o engraçadinho dos pombos. Se fosse nascer bicho, que bicho seria eu? Ou um pássaro, ou um gato. Eu adoro os pássaros. E os gatos. Lembrei da bola de pelo que eu queria vomitar. Talvez fosse melhor reencarnar em gato pra poder vomitar todas as bolas de pelo que eu bem quisesse. Seria da minha natureza vomitar bolas de pelo. Subi as escadas. 3 andares intermináveis, mas que volta e meia terminam bem rápido. Pensei nas pessoinhas, cada uma em uma cadeirinha. Pensei nas joaninhas esmagadas. Acabara de cruzar com uma no degrau que acabara de subir. Um degrau para cada pessoinha, um degrau para cada joaninha. E a cabeça não parou sequer por um minuto. Quis escrever os outros dois journais que faltaram. Agora não quero mais. Quero e não quero. Já nem sei mais. Na dúvida, opto pelo seguro. Não que vocês estejam perdendo muito: algumas reuniões em que pude conhecer melhor o tipo “francês”, algumas idas ao cinema, algumas doenças, algumas falências. Quando liguei meu computador, ele ameaçou não obedecer. Ele anda se comportando de maneira estranha, acho que é trauma do suco. Talvez eu volte na loja. Espero mesmo não ter que pagar por mais nada que seja. Espero mesmo é que não seja nada. Só o susto. Porque o susto sempre é. Hoje, por exemplo, levei um susto achando que ia morrer num ataque terrorista. Depois achei que estava desenvolvendo uma certa síndrome do pânico, mas agora acho que estou desenvolvendo é minha hipocondria. Eu penso e acho e imagino muitas coisas. Fica difícil encontrar verbo pra tanto. E só essa ultima hora da minha vida me rendeu uma pagina. Eu poderia escrever minha tese sobre minha vida. Bastariam 100 horas. Em uma semana eu teria meu trabalho pronto. E poderia partir en voyage sem me preocupar mais. Em duas semanas vou para Lyon. Visitar o Étore e conhecer a cidade. Mais pelo segundo motivo do que pelo primeiro, confesso. A minha primeira e última falência nessa terra me faz ter culpa de tudo que faço, inclusive comer. Conto os centavos que gasto (como antes) mas agora sempre com um certo incômodo em gastá-los. Eu odeio tecnologia. Sempre fui moça antiga. Sempre gostei dos livros clássicos e dos filmes de época. Há pouco pensei no valor de carta perdida que o email tem. Em outros tempos, nem a metade de vocês receberia noticias minhas, e estas seriam a metade mais escassas. Alguma coisa dentro de mim revira. Não é o cereal integral que eu acabei de comer. Nem o leite. Nem a bola de pelo. Na verdade eu não como meus cabelos, então nunca poderia realmente vomitar uma bola de pelo como eu gostaria. O que é que revira? Os filmes mais estranhos da minha vida? Minha cabeça que lateja? Meu espírito inquieto? Paris é uma cidade que dá muito trabalho. E eu não estou falando de trabalho físico. As folhas agora já estão quase todas no chão. A cidade começa a ganhar um tom mais sombrio, mais seco, mais triste. Os tímidos sol e céu azul ajudam de vez em quando a animar os ânimos. Os vermelhos, os amarelos, os laranjas e os verdes que eu tanto quis falar da outra vez agora jazem todos amarronzados no chão. Vira e mexe quero tirar uma foto. Percebi que é sempre das folhas. Achei chato. E também nunca estou com minha câmera. Valeria mais uma foto na mão do que memórias voando? Descobri que os queijos podem ter cheiro de igreja. Ainda não descobri se as galinhas bóiam. Descobri um ponto do meu corpo que arrepia fácil com um cheiro. Descobri isso vendo uma propaganda de perfume. Não sei quem falou em luxo, mas Paris pode ser uma cidadezinha chamada Piras, sem dinheiro. Não, eu ainda não fiz nenhuma compra excepcional, nenhuma roupa arrasadora, nenhum sapato tendência. Os cabelos aqui não ficam naturalmente brilhantes, nem a pele macia como um pêssego. As pessoas normais pegam ônibus, trem, metro e bonde, todos lotados o tempo todo. As pessoas normais usam preto e algumas outras poucas cores, todas em roupas mais que convencionais. E é em Paris que tenho descoberto as mediocridades do espírito, do meu espírito. Me descubro sem grandes ou verdadeiras ambições. A pergunta que mais me incomoda nas rodinhas sociais é “Mas, e depois, quais são seus planos, porque, assim, o que alguém que estuda cinema faz, pode fazer da vida?”. Às vezes lembro que meu maior sonho já foi o Oscar. Não sei bem em que momento eu desisti, ou esqueci dele. Agora meu maior sonho não é grande para ser maior, não sei nem se chega a ser um sonho. Acho que de sonho mesmo só os que eu tenho à noite. Quem sabe quando eu tiver minha casinha, eu também não tenha meu Oscar? Quero que ele seja gordo e lustroso como o daqui da Cité. Quase azul de tão preto. Que ande rebolando. E que tenha os olhos de um amarelo que eu nunca tenha visto antes. Quase branco de tão brilhante. Olhos cor de luz e pelo cor de noite. Sinceramente, não acho que vai se chamar Oscar. Agora, antes da página virtual, o journal passa pelo Word.  Meu maior erro é não me permitir o erro. Talvez eu possa responder às rodinhas sociais que pretendo ser a pessoa que escreve a sorte do Orkut. A sorte do Orkut tem sempre que escrever justamente o que precisamos ler naquele momento específico do dia. Eu precisava ler a bola de pelo. Já no final da segunda página, considero novamente a possibilidade de escrever minha tese sobre minha vida. Se um dia eu for uma pessoa de razoável interesse/respeito público, teria poder pra isso? Talvez. Na sessão publicitária a que somos submetidos antes do filme começar no cinema, vi o lançamento da auto-biografia do Michael Jackson. Será que presta? Pela capa acho que não. Agora a diferença do fuso-horário baixou para 3 horas. Dizem que os europeus envelhecem antes dos brasileiros. Tendo envelhecido mais que vocês, quando eu voltar, rejuvenesço?


Dessa vez não foi o fim. E também não é um começo.

10/10/2012

journal FXIII

saudade ou assombração?


01/11/09

noite fria. neblina densa e úmida. pessoas deslizando como fantasmas. ruelas americanas em 1940. filme noir. halloween. email número 13. eu doente indo no cinema ver um filme canadense de auto ajuda experimental. fome. não posso comer. odeio visitas. as galinhas bóiam? as sombras das árvores dançando na parede. as flores da cor da estação. as folhas que caem e outras que não. vermelhos marrons e amarelos. meu dente que doeu a morte. meu computador que doeu a morte. a festa do francês brasiliense. a festa da marie.

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está tudo errado. não era nada disso. nunca foi. declaro o fim desse journal. pelo menos até que minha cabeça volte pro lugar que é dela de direito.

12/07/2012

journal FXII

procurando o journal número 12 para postar aqui, redescubro que ele nunca existiu. sim, nunca existiu, porque deveria existir apenas hoje, 12 de 2012, dia em que volto para Paris, dois anos depois que parti. volto para uma vida que já não é mais minha. volto para um passado que agora é futuro. volto para mim. para me reencontrar essa página em branco. welcome ghosts!

11/07/2012

journal FXI

e como cabe ainda no dia de hoje...


20/10/09
Ois caros!

Como eu disse há algumas horas para o jom (antes de sair para minha crucificação): "se tudo der certo e eu voltar inspirada, escrevo o journal ainda hoje". Dito e feito. Cá estou eu, firme e forte, e logicamente não crucificada, na décima primeira edição do semanário. Então torçam pra que eu me lembre de todos os detalhes que minha memória ousa esconder de mim, pra que esse email tenha valido sua existência. Há o pequeno contratempo do subdesenvolvimento do meu cérebro que não consegue escrever e ouvir música ao mesmo tempo, somado ao fato de que estou ouvindo involuntariamente. Não, não é meu vizinho party hard, mas a boîte à musique (boate a müsique) que não para dentro da minha cabeça. Pior, boîte à musique do disco arranhado ainda por cima, porque faz mais de meia hora que só canto um refrão do ABBA. Sim, ABBA, pra vocês verem como eu estou inspirada. hehehe

Então vamos de novo aos fatos na medida do físico. Porque tanta inspiração? Na verdade eu acho que Deus e Jesus Cristo fazem o partido do bom e do mau policial. Sabe aquela história do bom e do mau policial? Um que interroga compreensivo e outro que interroga na ameaça? Difícil demais essa metáfora? Na verdade eu acho que Deus e Jesus Cristo são da política do Bate e Assopra. Já deu pra notar como eu sou religiosa né, hehe, mas na verdade tudo isso é só pra falar que sofri muito e hoje veio a recompensa. Ai credo, fui ficar falando de Deus, olha aí o castigo! Acabei de derramar suco no meu computador! Ai que desespero! Que aflição! Sabe aqueles sonhos em que alguém te persegue e as suas pernas travam e é o maior sofrimento? Pois é. Fiquei assim, imóvel, sem saber o que fazia primeiro, se tirava a blusa pra secar, se procurava um papel absorvente adequado, ou uma toalha. Afe. Esse suco tava nervoso demais, quando abri a caixa agora há pouco e fui me servir (antes do desastre final) ele também derramou todinho na pia. Uma eca. Mas as teclas todas respondem aos meus comandos, um bom sinal vital. Como eu ia dizendo (antes dessa pausa para dar atenção ao suco nervoso), tudo começou semana passada na aula de metodologia quando que o professor pediu que entregassemos na outra semana (essa agora) uma página com o nosso problema de pesquisa definido. Êta lê-lê. Quantas crises uma pessoa pode ter em uma semana? O tanto que eu tive. Foi o ó, biblioteca atrás de biblioteca, sentada atrás de sentada na frente do word, dicionário atrás de dicionário, dor de cabeça atrás de dor de cabeça, duvida atras de duvida. Ufa. Escrevi 3 parágrafos. olhei praquela "pagina" modesta e me dei por satisfeita. "Antes uma página meio cheia do que uma meio vazia" disse pra mim mesma. E fui cantando ABBA pra aula (isso foi hoje). No final das contas não vou ver a reação do professor - que só fez receber os escritos. Vimos um filme japa dos anos 50 e pronto. A parte da recompensa? Foi que hoje baixou um santo no povo e todo mundo resolveu falar comigo. Mas isso eu relato no próximo parágrafo.

Tudo começou semana passada na aula de metodologia quando eu vi os alunos que haviam faltado na aula da manhã. Tinha um sósia meio desengonçado do jom e umas meninas nojentas. Fiquei com preguiça de todo mundo e ninguém falou comigo, aquela coisa, cada um no seu quadrado, ou melhor, cada um no seu mestrado. Só que hoje, como eu ia dizendo, baixou um santo no povo e todo mundo resolveu falar comigo. Tudo começou com um fi animadinho que me deu "Bon Jour" (bon jur) na aula da manhã. Depois foi um doido no bonde que ficou contando sobre a palestra de midias digitais que ele estava indo assistir. Depois foram as meninas nojentas que me gritaram "Salut" (salü) e me chamaram pra ficar conversando antes da aula de agora da noite começar. Na hora pensei "I, já vi que vou ter que rever meus conceitos", mas faz parte. Também troquei duvidas sobre o que o professor estava falando com o sósia do jom e um outro cara lá. O sósia do jom até virou pra mim e perguntou "Você é italiana?". Sim, porque a ultima coisa que esse povo pensa é que eu sou do Brasil, aí eles chutam pelo sotaque mais próximo: italiana, portuguesa, espanhola... e por aí vão (e olha que ele era italiano também!). Então hoje foi um daqueles dias em que a sorte do orkut deveria dizer "Hoje é um bom dia para se fazer amigos", mesmo que ela só tenha dito "A vida amanhã é muito tarde, viva hoje".

Tinha pensado em dedicar essa décima primeira edição à lingua francesa, mas com o andar da carruagem, não vejo muito espaço pra isso, e já começo a esquecer todas as outras coisas que queria falar sobre. Bom, tinha a descrição do pessoal da minha sala que já foi mais ou menos dada: as nojentas (uma italiana, uma francesa e uma inglesa); o sósia desengonçado do jom; um menino que eu hoje, olhando de esguelha, achei que era uma menina; um outro (o fi animadinho) que fica desenhando carinhas a aula inteira; umas japas; um veio; umas meninas de cabelo bem compridão; uma ruiva do cabelo enrolado e peitão; e hoje também tinha um bailarino russo. Nossa, ele era imenso de alto e tinha uma super aliança na mão esquerda. Estão vendo meninas? Aprendam: o dia que vocês arrumarem o bailarino russo de vocês, tratem logo de providenciar uma super aliança pra botar na mão esquerda dele! Marca território bem marcado que é pra qualquer uma desistir de qualquer idéia logo de início.

E falando em gente bonita, outro dia eu vi um principe no metrô. Fazia tempo que eu não via um rapaz tão bonito aqui (falando isso parece até pecado né, mas é verdade, todo aquele desencantamento funcionou como um belo par de óculos pra minha europia (miopia européia)), mas nesse dia eu parecia, assim, a bela adormecida acordando com o principe plenamente encantado (ou seria ela(eu) a encantada?). Pouco importa, o que interessa era que o menino parecia o William no auge da sua juventude, naquela época em que ele saia na capa da Atrevida, só que ainda mais maduro e bonito. O ó! Depois disso vi um músico também. Mas não era encantado. Tava mais pra um desses filósofos antigos (só que jovem ainda) bem barbudões que a gente só ve em foto P&B. Ainda assim ele me chamou a atenção. Não tinha aquela beleza óbvia dos principes, mas a misteriosa dos músicos. Refleti com qual eu me casaria. Cheguei a conclusão que uma boa música não envelhece prum bom ouvido. Não sei se isso responde, mas vá lá quand même (can meme).

Ah sim, nesse tempo todo em que venho escrevendo tenho ido à natação. AFE. Sério, se eu pudesse tomar injeção, ou tirar sangue no lugar de ir nadar, mesmo que fosse duas vezes por semana, acho que eu sofreria menos. Juro que é um martirio. 

E que mais? Ah é, essa semana chegou nessa Parisa a Kameni (ai, tem muito brasileiro nessa terra, daqui a pouco to falando mal do primo de alguém sem saber)! Saímos pra tomar alguma coisa. Levei ela pra conhecer a night da Sacre Coeur. E não é que tava vazio? Acho que era o frio. Ainda assim foi bem divertido!

E falando no frio... me descobri uma mulher sem palavra. Sem princípios. Ou quase. Logo eu que sempre participei da política Diga Não à Boina, outro dia saí com mamis para comprar aparatos de frio como coisas para a cabeça e para as mãos. Não teve jeito... me rendi. Ai que horror, o que dirão minhas companheiras do Queime Um Chapéu, Não Queime um sutiã?! Como pude, Senhor, cometer tamanha falta!? Mas sabe, gorro também... ficar de gorro em Paris, não dá sabe... não é classe... mas eu juro que são decentes! Não tem flores, nem véu. Só um que é peludinho e os outros dois tem um laço que é pra ninguém achar que estou de touca de banho. É... comprei 3... ah gente... não dá né? 4 meses empacotada sem poder trocar nem uma vez de cor ou de modelo pra ficar mais bonito com a roupa/situação? Mas comprei na C&A porque também não sou besta de ficar comprando chapéu caro. Aí segunda foi o teste. Saí na rua sentindo que tinha mesmo era uma melancia na cabeça. Acho que acabo me acostumando. O problema do chapéu é que depois você não pode tirar porque o cabelo dá beijos né, é chapéu pro resto do dia, então tem que estar no espírito. Mas mamis disse que eu fico parecendo moça antiga. Espero que isso não queira dizer "chapéu é demodê".

Bom... pelo que a barrinha lateral da minha página de email indica, já escrevi o bastante por hoje, acho que posso deixar vocês descansarem a vista.

A diquinha de moda está cada vez mais escassa. Quase uma diquinha em extinção. Quem diria que o nosso bom e velho professor David Penington estava certo!? MEIA CALÇA BEGE ESTA EM ALTA! Juro! Uma coisa. Vale aparecendo só assim, de leve no pé com sapatilha, até de vestidinho curto e sandália aberta. MEIA CALÇA BEGE É TENDENCIA!

E o resumão. Outro dia almoçando no RU tinha um rapaz sentado ao lado. Do bolso do casaco dele saia um cartão postal. Espichando o rabo do olho consegui pescar no meio daquela confusão escrita um "je t'aime".

E pra acabar no ritmo de pesquisadora, concluo o journal com uma pergunta: as joaninhas hibernam?

Bisous nos cous,
Juliá

Ps: Divido com vocês esse momento indescritível para mim que é ouvir um refrão do ABBA, mental e ininterruptamente:

...
And with no trace of hesitation she keeps going
Head over heels
Breaking her way
Pushing through unknown jungles every day
She's a girl with a taste for the world
...

07/07/2012

journal FX

a desmemória transforma tudo em descoberta


13/10/09
Ois todos!

Eu estou sempre auto criticando esse semanário de viagem. E cada vez o descubro um pouco mais. É um pouco estranho que eu ainda encontre novidades naquilo que é criado inteiramente por mim, mais ça arrive. Essa semana descobri o lado assustador deste email: me pego escrevendo novamente. E a última vez parece ainda que foi ontem. Mas já faz uma semana! E toda vez é o mesmo susto. Mais uma semana que passou. E outra! E mais outra! E já estou acabando a décima, e até terminar de responder as respostinhas já estaremos na décima primeira! Já consigo até me ver escrevendo a edição especial de natal. Assustador.

A edição especial nº 09 ano 09 rendeu respostas maravilhosas. Em cada uma que recebi descobri timidamente as pessoas que me leem. Descobri comentários a favor e contra certos estilos, sentimentos diversos, poesias. Porque de certa forma, a mais descoberta aqui sou eu que venho contando todas as desaventuras que passo no lado de cá do além mar. Dos outros, só sei o que me escrevem que, assim como eu nos outros journais, são sempre relatos superficiais na medida do físico, da ação. E dessa vez não. Foi uma experiência maravilhosa que eu amaria repetir incessantemente, mas infelizmente, escrever daquela maneira exige muito do espírito e receio que daqui pra frente terei cada vez menos força para tanto. Ainda que fosse interessante talvez, assim, de vez em quando, dar voz ao estômago e não à cabeça. Sim, porque não sei quem inventou que os sentimentos vem do coração. Tudo que sinto de mais forte fica na altura do estômago e não, não estou falando da fome. Ta certo que o estômago não é muito romântico, mas nós já passamos dessa fase. Então volto um pouco para a mesmice, que é pra ela não deixar de ser.

Hoje começaram minhas aulas. Hoje foi o segundo dia na verdade. Terei aula segunda de manhã (que eu perdi olhando errado o horário), terça de manhã e a noite, e quarta a tarde e a noite. Nenhum período por inteiro, são aulas de 2 horas cada. As vezes acho que vai dar tudo certo. As vezes me vejo panicando (segundo Karina), daquele jeito. E pra escrever sobre o dia de hoje, nem sei se consigo, ainda to meio biruta. Sei que durante uma hora eu passei um dos top 5 momentos bizarros dessa viagem. Bom, vamos aos relatos superficiais na medida do físico: estávamos lá, eu e Karina. Saídas quentes da aula de estética onde acabávamos de receber um resumo oral de 3 livros sobre a questão do ser ou não ser. Encarnou? Descemos prum café de máquina que a Karina jogou na privada minutos depois. Nós não tínhamos o número da sala da aula de francês (porque a inscrição foi feita pela internet e esquecemos desse detalhe). Resumo da história até o ápice do drama: ficamos rodando naquele labirinto chamado universidade, de porta em porta, tentando descobrir um ser que nos indicasse o local certo para nos dirigirmos. Dito e feito, a mocinha da secretaria apontou a sala. Entramos com a confiança de William Tell depois que acertou a maçã. Eu já quase sentando na cadeira, ignorando os olhares curiosos (atenção para os 40 minutos de atraso). A professora então pergunta "À que devo a honra?" eu olho para Karina, Karina olha para mim, olhamos para a professora, o sangue subindo no rosto e a voz engasgada "Aqui não é a aula de francês estrangeiro?" "Não" - eu não poderia imaginar uma resposta mais óbvia! Nos desculpamos engasgando cada vez mais, e a tortura continuou "Vocês sabem aonde vocês estão indo?" "Er... bem... na verdade... não, mas a gente se acha! Desculpe novamente". Risos. Fecha a porta atrás de nós. Ambas se dobram ao meio, sem saber se riem ou se choram. Decidem pelos dois. Daquele jeito que alguns de vocês já devem ter me visto. Aí a Karina já escondida nas escadas e eu ainda no corredor borrando toda a maquiagem. Quando eu olho pro lado, um rapaz assim, meio espantado (lógico), pergunta "Ça va?" Aí é que eu desembestei a chorar (pior do que um 'tudo bem?' só um 'ça va?'. Só estando aqui pra saber a quantidade de significados que a expressão 'ça va' abrange. Juro que era última coisa que eu queria ouvir naquela hora). E o coitado ainda não fazia idéia que eu sou da política do Ouvido Amigo. Comecei a desabafar, assim, meio engasgada, meio chorando, meio rindo, falando meio em português ainda porque nem sabia mais quem eu era, muito menos onde eu estava. Ai que foi um Deus nos acuda, e o fi tentando ajudar as duas descompensadas chorando sem saber o que fazer. No final das contas perguntei o nome dele. Entendi que era Miguel. Não sei estava predisposta a ouvir um nome divino a esse ponto, ou se era esse mesmo o nome dele. Mas anjo ou não, ele foi um bom ombro durante 5 minutos. Depois a Karina disse que o viu passando/ignorando a gente. Acho que o assustamos um pouco com a verborragia, ou melhor, a choradeira. Afe. Ainda tentamos descobrir via biblioteca a tal da sala, mas a internet não estava funcionando. Entendemos o recado, Sr. Destino. No final das contas os filmes estavam certos e errados o tempo todo. Aquela cena da grande escola com 100 cadeiras onde um professor bem velho fica lá embaixo do auditório passando slides, e os alunos que trocam experiências e se apresentam espontaneamente uns aos outros no final da aula enquanto guardam os livros nos armários... Nada disso, tudo errado. Aquela cena do micão da sala errada, não podia ter sido pior. Enfim, nada melhor prum típico primeiro dia de aula.

E em estilo brainstorm, o resumão: saí da abstinência cinematográfica mais uma vez. Estou tendo uma verdadeira filmorragia. As vezes me pego conversando com as coisas, as vezes com certas partes do meu corpo. Nada me respondeu ainda, acho que isso é um bom sinal. E faltou o comentário sobre os insetos europeus: ainda não vi formiga, nem barata; já cruzei com umas lagartinhas (eca), alguns mosquitos (pfff), poucas moscas (afe); estamos na época dos mosquitões de pernas imensas, assim, de uns 5 centimetros (eecaa que noojooo), e das joaninhas aos montes (argh); também tem uns outros coisinhos que eu não sei bem o que são, branquinhos e amarelinhos, melhor não insistir. Em alguns dias serei enterrada sob o morro dos papéis uivantes que se forma na minha mesa. Quanto mais eu me desfaço, mais panfletos e revistas eu tenho.

Dessa vez a mesmice pode ficar metida, quer dizer, contida, porque além deu inverter a ordem, hoje a diquinha de moda é cinematográfica: September Issue - o documentário sobre a editora da revista Vogue. Bem divertido.

Bom, fico por aqui, ainda biruta e com ler no pulso direito.

Bises

04/07/2012

journal FIX

são dias de pensamentos, e não linhas...


05/10/09
Ois pessoas!

É seguindo meus princípios de rebeldia que digo agora: cansei desse journal! Toda vez é a mesma coisa, um emailzão metido a engraçadinho! Será que estamos condenados a nos ser pro resto de nossas vidas? Mas que chatice! Por isso, nesta edição especial número 09 do ano 09 vou tentar dar uma bola na mesmice e escrever uma coisa diferente. Pelo menos um pouquinho diferente vá, assim, só pra dar uma enganadinha na rotina. Que venha o brainstorm! Assim, tudo jogado mesmo, que nem loja de roupa a quilo!

Na verdade eu penso tantas coisas ao longo dos dias, que vou esquecendo de acordo com o fluxo que segue. Sai da frente que atrás vem gente! Por exemplo, se eu tivesse feito o colégio nessas terras, teria passado com mais facilidade na matéria de física. O vai e vem dos vagões do metrô e do bonde fazem a gente prestar mais atenção no deslocamento dos corpos.

As mulheres e os homens também, a cada dia ficam mais feios, ou menos bonitos. Talvez eles nunca tenham sido realmente bonitos, mas aquele inegável fator europeu nos cega assim de primeira. Depois que o deslumbre, ou miopia europeia, passa, aparecem as olheiras, os desgrenhados, os fedores, as unhas sujas, as roupas rasgadas, as peles estragadas e aquele jeito estranho, um jeito que assim, de primeira, deslumbradamente, é muito convidativo, mas que na verdade tem um certo fundo amargo, mal humorado, chato, frio e mesmo superficial de ser. E é todo mundo no seu mundinho, com seus ipods, malas e sacolas pra lá e pra cá, como uns caracóis apressados, esbarrando, às vezes pedindo licença, sempre bufando, sempre reclamando (um pouco como eu aqui agora) e olhando torto um pro outro.

No final das contas dá tudo na mesma. Agora tenho medo de pegar piolho. Fico sempre atenta pra ver quem senta no banco atrás do meu. As escadas são uma constante. E tudo passa, até a uva passa. O vento passa, o frio passa, o bonde passa, as bicicletas passam, as pessoas passam, eu passo. A minha existência nessa cidade vai ser tão significativa para os parisienses como a de alguém que está em Brasília e que nenhum de nós conhece, nem vai vir a conhecer, ou como a nossa própria existência para o resto do mundo. Quanta crise! Mas é assim. Eu vejo umas pessoas que nunca mais vou ver na vida passando pra lá e pra cá dentro dos vagões, virando uns borrões vagos na memória.

E os cachorros. Grandes, magros e feios. Pequenos, gordos e peludos. Todos metidos. Eles passam também, cada um com seu dono. Ou seriam eles os donos? Cara de um focinho do outro, como no início do desenho dos Dálmatas. Por isso que tem um monte de cocô na rua. E mendigos. Cada um com um bichinho no colo. Cada um com uma cara mais de abandonado do que o outro, pra ver quem desperta mais piedade. E esta também passa por uma crise existencialista. A ajuda nunca é realmente bem vinda. Os poucos centavos são sempre seguidos de algumas bufadas ingratas.

E tem os barulhos que passam no dia a dia. As sirenes das ambulâncias que não deixam um ponto de silêncio na cidade; As sirenes dos metrôs que aceleram os passos e estimulam alguns saltos à distância; As risadas dos jovens alegres, estrangeiros ainda encantados, talvez míopes, que fazem piquenique aqui no jardim em frente (ou pelo menos faziam, já que o outono é o começo do fim das alegrias veraneias); Os traços surdos das musicas que as pessoas escutam em alto volume nos fones de ouvido; Umas buzinas nervosas perdidas aqui ou ali.

Os bebês loirinhos, negrinhos, japinhas, bebês por todos os lados também passam. Nos carrinhos, nos cangurus, nos moisés. Bebês e babies de todos os tipos, pra lá e pra cá, com seus bichos, mamadeiras, todos chupados, pendurados, olhando pra lá e pra cá, tentando entender as luzes, os barulhos e as caras. Alguns sorriem, outros desconfiam. E mais mendigos, já com as idéias avariadas, que babam e cheiram esquisito, uma mistura de cigarro, cerveja e poeira, que gritam ou dormem nas estações. Os jovens pais, os descolados, os badboys, as badgirls, os velhos finos, outros nem tanto, os business men, as business women, os muçulmanos, os africanos, os brasileiros. Todos no fundo mais caretas do que a gente imagina, e sempre passando, borrando na minha memória. Os jornais, os poketbooks e os fichários. Mais do que caderno, vale mesmo são as folhas soltas, perdidas cada uma num buraco da bolsa, voando pelo chão quando tudo vai por terra. Os sapatos passam pra lá e pra cá, um mais feio que o outro, mais velho, ou mais sujo. E o medo de atravessar no sinal, porque o que abre pra um nem sempre fecha pro outro. Também tem os doces nas vitrines, a coca-cola quente e os pães debaixo do braço. Os molhos, os cremes, as massas. A falta do sal. Do alho. Do feijão e da mandioca.

Espremo as idéias (como as laranjas brasileiras são espremidas para virarem os populares sucos de laranja engarrafados que eles vendem por aqui) para ver se consigo algum sumo de história a mais para contar. Sinto que falta alguma coisa. Eu penso em tantas coisas ao longo dos dias, não é possível que sejam só essas linhas... são dias de pensamentos, e não linhas. Infelizmente não temos muito poder sobre as idéias. Elas vem e vão, pra lá e pra cá, passam como as pessoas, os cachorros, os sapatos e os bebes. Como eu. E como os sentimentos. Que vem e que vão assim, e a gente nem ve direito (ou seria nem sente direito?). É raiva, ciúmes, medo, inveja, tristeza... Quanta coisa ruim! Mas também tem saudade, amor, alegria, bem querer. E eles vão se misturando um no outro. E vão diluindo um no outro, virando um o outro. E daqui a pouco tudo passa e a gente sonha a noite. Eu sonho com morte, assassinato, suicídio e vampiros. O vampiro era o Jonny Depp então não foi lá um pesadelo.

Além dos ipods, dos livros, dos barulhos e da uva, também passam as horas. Corridas como os caracóis esbarrentos. Escorrem pelo dia e a gente nem vê direito (ou seria nem sente direito?). E agora já é meia noite aqui. E sete aí. Uma maluquice esse fuso-horário. Meu dia termina quando o de vocês começa. E vice-versa. Quem é que tem mais tempo? Eu que começo o dia mais cedo ou vocês que terminam o dia mais tarde? Sobra o sentimento de inutilidade, de desperdício.

Sobram também as ruas, as placas e os mapas, todos já mais familiarizados com a minha memória fotográfica. Vira e mexe me reconheço num lugar e já sei chegar no outro, só de lembrança. Assim, num piloto automático sem gps. Ainda um orgulho para uma brasiliense. E esse email existecialista, talvez um tanto pessimista, ou um tanto melancólico, mas nem por isso depressivo ou triste (de acordo com o dicionário informal fornecido pela internet), vai chegando ao seu final. Paris será sempre a cidade das luzes, o pólo da moda e do cinema intelectual. Paris será sempre Paris. E eu, pelo visto, também estou condenada a me ser pro resto da vida, porque mesmo tentando dar uma bola em mim mesma, acabo tropeçando nos próprios pés. O journal continua um emailzão metido a engraçadinho... No final das contas dá tudo na mesma, nada muda, nem a surda muda.

01/07/2012

journal FVIII

musa, conto as horas pra te encontrar...


29/09/09
Ois gentes!

O cérebro humano é muito desenvolvido, mas ainda assim, o meu não consegue fazer duas coisas como escrever e ouvir música ao mesmo tempo. C'est domage (cé domáge)... talvez ele não seja tão desenvolvido assim... talvez seja só o meu mesmo... quand même (can mem), eu vou tentar dar uma bola na evolução e escrever ouvindo música. Talvez isso me custe mais revisões, mas se ainda assim sobrar algum nonsense, vocês desculpem a falta de conexões nervosas...

É interessante notar a transição lenta, gradual e quase imperceptivel que a vida da gente vai tomando. Por exemplo, as coisas param de acontecer quando já estão em seus devidos lugares. Soa até meio obvio depois de escrito, mas no corpo a corpo é uma sensação um tanto estranha. Eu que já tenho algum tempinho aqui na terrinha, instalada, começo a notar que minhas semanas tem sido menos aventurosas, e isso começa a me dar um certo trabalho pra escrever os journais, visto que com menos (des)eventos, fica mais difícil manter o nívi do email. Mas um desafio é um desafio, e como má perdedora que sou, não desistirei tão cedo.

Das desaventuras maiores começo pelas do esporte. Ainda não sei se a loira escapa no final do filme, quem sabe eu descubro isso no final do ano, mas a corrida tem sido cada vez mais cansativa e a floresta cada vez mais fechada. seis meses parada, praticando somente a preguiça, não recomendo o recomeço, se for pra parar, da próxima vez, que seja pra sempre! E foi no ritmo do agora ou nunca que eu tirei a quinta feira passada para me inscrever na natação - como já relatado no email passado. O dia estava lindo e eu, inspirada que só, precisava de um documento que ainda não tinha pra fazer a carteirinha. Depois de subir e descer umas 5 vezes as escadas aqui do prédio só pra conseguir o tal do papel, fui no lugarsh onde fica a piscina e onde me informaram ser possível se inscrever. Cheguei lá com dinheiro, foto, documento e cuia na mão, e o homi disse "né qui não". Aí eu fui, inspirada que só, pro lugar certo. Fiz minha carteirinha. Voltei para a piscina, inspirada que só, e o homi disse "ta berta não". Não, tudo bem, era o tempo que eu precisava para comprar os aparatos que faltavam: uma touca e um maio. Diante da máquina, com uma nota de 50 na mão, vejo que a dita só aceitava 10 ou 5 E que não tinha nada do meu tamanho. Mas ainda era cedo para desistir! Já tinha subido tanta escada, andado tanto no sol, pra nada? Nããão, jamais! Eu ia comprar esses aparatos e ia nadar, no mais tardar na tarde seguinte! Voltei para casa, pesquisei uma loja de artigos esportivos e saí, inspirada que só. E o dia estava lindo. Vi que o bonde estava no ponto. Apertei o passo. Entrei! "Ufa, está dando quase tudo certo..." quando o homi do bonde anuncia "o bondi quebrô". Que maravilha! Começo a ter medo dos sinais. Mas o dia continuava lindo e eu inspirada. Pensei com meus botões "Por que não ir de bicicleta? O dia está tão bonito e a loja é aqui perto, a situação ideal!". Ni que eu chego no ponto das bicicletas, junto comigo chega também um outro rapaz e adiante somente uma vélo (velô). Confesso, nessa hora, não pensei duas vezes, o dia estava lindo e eu estava inspirada, mas inspiração nunca foi burrice. Depois de tanto aviso do destino? Se eu pegasse aquela bicicleta era bem capaz de chegar lá e a loja estar fechada! Larguei mão da dita e da natação. Resolvesse tudo isso depois. Foi o que eu fiz. Já nadei duas vezes desde então. Quase morri em ambas. Ou de parada cardíaca, ou de fadiga. Já me quebrei de cãibras e pressão baixa. Mas vivo e escrevo. Dois bons sinais vitais. Depois dessa começo a achar alguns fios loiros perdidos na minha cabeça.

Impressionante como até escrever sobre esporte cansa! Além dessa (des)aventura também teve a saidinha com a Karina - família (agora que a mãe dela esta aqui para ajudar com a baby, ela tem mais tempo livre). Fomos pra Bastille (Bastíe) onde tem vários barzinhos legais. Pingamos em dois. Um melhor que o outro. Isso não quer dizer que nenhum tenha sido muito bom, mas sim, eles eram bacaninhas. Depois comemos crepe e sorvete, gulosas que só. Demos umas viajadas nuns roteiros que queríamos escrever, aí já viu, ócio criativo dá uma fome... foi muito legal! Rimos muito e ela no final perdeu o ônibus, coitada, teve que pegar um taxi, que no caso dela não é nada interessante, visto que ela mora lá onde o vento faz a curva.

Sábado eu também saí com o Clément (Clemân). Ele me chamou pra andar de bicicleta. não sei até onde foi sadismo dele, e até onde foi masoquismo meu, mas no final das contas serviu pra confirmar o que eu já sabia: não nasci pressa vida. Depois encontramos uns amigos dele da faculdade para jantar. Fiquei meio peixa fora d'água, mas foi bom, é sempre bom ouvir francês conversando, ainda mais francês jovem. Voltei cedo pra não perder o bonde.

É... foi basicamente isso. Aqui é interessante também notar como são as menores coisas, as mais sem importância, que fazem a maior diferença nessa vidinha paralela que a gente leva. A começar pelo elevador. Ninguém nunca pensou como seria ter que subir todos os dias de escada até chegar em casa (digo isso pros que moram nas 100/200/300. os da 400 também não valem, são uns lancezinhos de degraus que não chegam nem no primeiro andar dos daqui). Depois tem o carro. Nossa, como sinto falta de dirigir. Sair mais tarde de casa, não ter que trocar de metro 3 vezes, nem subir mais escada por causa disso. Depois tem algumas já mencionadas como a manicure, como é chato fazer o pé! A depiladora, como dói se depilar sozinha! Aqui sinto falta até da pia da cozinha. A pia do meu apartamento é um tanto pequena, não cabem as louças limpas, muito menos as sujas, não dá nem pra lavar nada direito. Enfim, são pequenas coisas que a gente usa e faz todos os dias, e que aqui vai notando e lembrando, e percebendo que na verdade a gente nunca repara em nada direito. Então, queridos, fica a dica, tirem um dia e prestem atenção em tudo que vocês fizerem, e tudo que usarem para fazer, porque se fosse diferente poderia ser bem mais chato, complicado ou desprazeroso.

Bom, depois desse momento lição de vida tem a diquinha de moda equivocada. Equivocada porque me lembrei que em termos de calendário fashion, o Brasil está sempre à frente da Zoropa. Então, na bem verdade, não adianta de nada essas diquinhas que eu venho dando, que já estão todas ultrapassadas nesse mundo cruel que é o da beleza. Mas eu sou rebelde, entón, pros meninos o pulôver vai por cima de uma camisa de botão com a gola para fora. Pras meninas é um camisão tipo masculino de botão bem folgado por cima de uma meia calça ou de uma legging. A diquinha dessa vez foi meio frouxa, mas isso é tudo culpa da música que eu to ouvido que não me deixa escrever nada direito...

E depois da diquinha de moda equivocada e frouxa, sempre tem o resumão: Outro dia no metro tinha um músico com um instrumento imenso, talvez um baixo acústico, maior que ele. E o levava abraçado, como se fosse sua mulher, talvez sua musa. Aqui, algumas escadas são feitas de uma pedra brilhante que a noite, com a luz, parece mesmo que estamos pisando é nas estrelas.

Pros corajosos e curiosos algumas fotinhos de onde eu moro. Não, eu não moro embaixo da ponte, nem em um buraco. Primeiro o prédio, seguido do banheiro, cozinha e sala. Ah, só pra constar, meu email tem corretor ortográfico, os erros são mais que propositais.

Bises,

25/06/2012

journal FVII

não estou mais em paris, mas paris ainda está em mim


21/09/09
Ois amigos!

Já fazem 47 dias que estou cá do outro lado do mar. E continuo escrevendo, mesmo recebendo cada vez menos respostas. Mesmo assim, carente, sozinha, e mal-amada, eu continuo escrevendo, em Paris (ha-ha).

Depois de duas palavras de vingança, procuro na memória as perdidas da semana. Como escrevi o journal 6 atrasado, e o 7 ainda em tempo, este vem com menos histórias... mas nem por isso será menor (ha-ha-ha).

Nessa vidinha, que que a gente faz? Você me pergunta, e eu respondo: nessa vidinha a gente visita uns castelos. É, porque enquanto a gente não casa com um duque (ou no caso aí da terrinha, com um deputado) e compra um só pra gente, só dá pra ir visitando/sonhando com os daqui... e é visitando - não sonhando - que a gente paga o pão dos guias turísticos. Então, eu, vó e vô alimentamos por um mês 3 coitados: uma fia que falava inglês e italiano muito bem, um fio que falava inglês e espanhol muito mal e um  japa que falava japa. Aí os fio foram andando e a gente foi seguindo. Calma, gente, calma, nós não fomos andando até lá, nós fomos de ônibus mesmo. O primeiro castelo, meu futuro lar doce lar, chama-se Chenonceau (Xênonçô - pra vocês, plebe pobre e ezótica do 3o mundo). Minha casa fica no meio de um rio, de frente pra um boulevard (bulevar) de longas árvores, ao lado de um jardim geometricamente planejado, próximo a um labirinto rodeado por um bosque. Uau! Pois é, eu sei, não é a toa que é o meu futuro lar. Depois seguimos para Cheverny (Xeverní), um palacete, assim, bonito, mas que eu tomei implicância porque os herdeiros ainda estão por lá, então no meio da decoração original do século 16/17 a gente encontrava uns porta retratos com umas fotos de um casamento em 1994, e de umas crianças de cabelo lambido. Depois veio o Chambord (Xambór), colossal, e só para festas, bailes e jantares... bons tempos aqueles... uma maravilha ser rei!

Depois desse dia castelento, na semana sobrou só o cinema para contar. Aqui, na terrinha das artes, tem carteirinha pra tudo. Não sei se é porque o povinho daqui é assíduo demais, culturalmente falando, ou se é só pra ter mais formulário pra preencher, porque aqui, só falta ter que preencher formulário pra tomar água da torneira. Acho que é porque ela dá pedra no rim, aí seriam vários pro seguro social, então eles deixam passar. Bom, eu preenchi alguns outros vários insuportáveis e intermináveis formulários e aderi às carteirinhas do cinema. Aqui tem um cinema que você paga uma taxa mensal e vai quantas vezes você quiser, ou puder. Como todos os filmes passam por aqui, resolvi me vingar da abstinência que eu tinha em Brasília e fui 3 vezes ao cinema em uma semana! E vou mais umas 5 até o final do mês! Vi A Deriva, 2x Inglorious Bastards, Julie e Julia, e começo a ter idéias para meu trabalho final. Sim, até porque tenho que ter idéias logo, mas isso eu explico no próximo parágrafo. Ainda quero ver 9 do Tim Burton, O profeta, aquela animação da pixar, que eu não sei o nome, do menininho escoteiro, e um outro que não sei se saiu aí também chamado Les Regrets, além de 500 dias juntos e... afe! chega! eu vou é ficar doida, isso sim, com tanta carteirinha, tanto filme, tanto teatro, tanta coisa pra fazer! chega a dar uma angustia!

Hoje também me inscrevi na universidade! Com, adivinhem, carteirinha e tudo! Parecia até matricula na UnB. Um monte de fila, fila pra tudo, pra todos os lados, e todas longas. Aí tinha que ficar preenchendo um monte de formulário e pagando um monte de taxa. No final você recebia a carteirinha. Levei minha pior foto. Quis morrer. Achei que era pra deixar com eles, lá num desses montes de formulários que eu já sabia que ia preencher, aí morrinhei a foto bonita, que já está acabando, mas não, era pra maldita da carteirinha. Agora tenho que olhar para aquele ser estranho, descabelado, esbugalhado, dizendo ser eu, o resto do ano! Ai que horror. Vou botar um daqueles adesivos de sorriso em cima, que nem a gente fazia na 5a série. Ah sim, quase ia me esquecendo, ficou que vou ficar no Master2 mesmo e devo dizer, estou em pânico! Por isso a pressa das idéias. Torçam por mim!

Amanhã vou me inscrever na natação! (oohh) Pois é minha gente, se eu pudesse fazer uma comparação estranha, diria que o esporte é o assassino da serra elétrica, e eu, aquela loira que corre dele na floresta. Agora eu não me lembro se ela escapa dele no final. Melhor assim, se eu lembrar, é capaz de desistir antes de me inscrever. De maneira ou de outra, aqui na cité (citê) tem uma piscina (coberta, por favor) que pra usar é bem baratinho. Mas tem que usar maiô de uma peça, não pode ser de duas, se não, do jeito que os franceses são, acaba sendo é nenhuma mesmo. Aí vou acabar comprando um ali na máquina. Sim, porque aqui eles tem máquina de tudo, refrigerante, café, lanchinho e artigos de natação, onde você encontra além de maiôs e sungas, óculos, toucas e até tampões de ouvido! Nossa, mas esses europeus pensam em tudo mesmo né!?

Amanhã vó e vô partem continente afora. Depois voltam por mais 2 dias e après (apré), back to terrinha. Eu continuo aqui, na terrinha que fica do outro lado do mar. Descobrindo novas gírias, enfrentando os mal-humorados, adivinhando o tempo, deslocando minhas costas, desmistificando essa gente. Se eu pudesse fazer outra comparação estranha, diria que me sinto como Pedro Alvares Cabral quando descobriu o Brasil, só que um pouco mais bem informado.

Essa terra não tem palmeiras
Também não tem sabiás
As aves daqui são escuras
E não gorjeiam como lá
Mas aqui também tem primores
Outros tantos diferentes
E em cismar, sozinha, à noite
Encontro tanto lá, como cá
Todos bons de contar
Não permita Deus que eu esqueça
Das palmeiras, dos queijos, dos vinhos, dos sabiás
De tudo que eu encontro tanto lá, como cá

Nossa, depois desse momento poesia, melhor nem revisar esse pedaço que é pra não ficar deprimida, vou ali pro cemitério de montparnasse começar a viver como os boêmios do romantismo... e depois desse momento piada intelectual, eu paro logo de escrever, porque tudo isso é um mau sinal.

A diquinha de moda não tem, nesse email teve até momento poesia e momento piada intelectual, seguir tudo isso com uma diquinha de moda é demais pruma lida só.

O resumão da semana sempre tem, porque são momentos de minutos que valem a pena serem divididos em outros vários: lindo foi descobrir escondidos por entre os relevos dos arcos do Arco do Carrossel, ninhos, muitos, pequenos, camuflados, de andorinhas. E debaixo podia-se ouvir ecoando o canto alegre, ou talvez esfomeado, dos passarinhos. 

Pros olhos que ainda tem coragem, seguem algumas fotos (eu e o louvre, eu e a torre eiffel, eu e o sena, eu e...) nãão... não sou sádica a esse ponto, só tem eu e o arco do triunfo e eu e... hehe mas falando sério agora, tem 2 fotos do show que eu fui (rock en seine); eu acendendo uma vela que é pro santo ficar feliz, lá na notre dame; algumas do meu aniversario - karina + família / vô, vó e mamis; não deu pra anexar mais porque o email é plebeu e só tem 10MB de potência. No próximo, envio umas fotinhos de onde eu moro, e depois quem sabe de onde eu vou morar hehehe

Beijos e não reclamem, a única pessoa que pode reclamar aqui sou eu, que estou carente, sozinha, e mal-amada do outro lado do mar, em Paris (ha-ha-ha-ha) eu só faço isso que é pra vocês sofrerem um pouco também, sabe? de raiva ou de inveja.

18/06/2012

joural FVI

eu ia escrever sobre... mas paris dentro pulsa, e me salva.


16/09/09
Ois mes chères!

Depois de uma semaninha infernalmente tepeemastrálica, eu volto a descobrir o que é o amor. O céu é mais uma vez azul, as flores já tem cheiro e a música volta a me arrepiar. Ah... como é bom viver... em paris! hahahaha Pois é. Voltei a ser gente. Acho que quem inventou a história do lobisomem era casado. Aí pra não ficar muito evidente de onde vinha a inspiração ele falou que a culpa era da lua. Mas coincidentemente, a lua cheia só acontece uma vez por mês... does it ring a bell?...

Aí o que posso contar, ou melhor cantar, já que estou gazelenta?... meu aniversário foi simplesmente bom. simplesmente, porque foi simples. bom, porque foi bom. não faltou ninguém (dentro das possibilidades): mãe, voio/voia, karina + familia. sobrou um amigo dela. mas era simpático, então também foi bem vindo. Ganhei presentins que me deixaram feliz também. Uma canequinha de infância, um pijama, um livro, sabonete e cartinhas, muitas cartinhas que me deixaram tão feliz! Obrigada pros que lembraram! Comi um risoto de queijo com frango. Tomei um vinho. Vimos a pontinha da torre eiffel acender as 10 horas da noite. Dormi.

Comecei o email já pelo fim da semana que foi a parte mais importante... mas antes disso também aconteceram outras coisas como a chegada dos meus avós, alguns passeios que fiz com eles... pequenas coisas que não valem o relato. Então ficamos só com o curioso. Quem diria que europeu é farofeiro? Ninguém, lógico. Peroquê, mis amigos, aquele piquenique que a gente ve nos filmes antigos, com aquelas toalhinhas brancas de renda, debaixo de uma arvore em 1800... aquilo lá, mis amigos, na bem verdade, não difere em nada da nossa boa e velha conhecida farofada! Aqui nessa terra, liberou uma grama, uma sombra, ou qualquer pedaço de chão alinhado em que não passem carros, mis amigos, tão lá, os farofeus, digo, europeus. aí cada um traz uma coisa. É batatinha, pão, salada, salame, vinho, suco, copo, talher, toalha, bolsa, abridor, afe maria! Eles só não levam o isopor. porque aqui toma-se tudo quente mesmo. ou melhor, frio, mas se esquenta ninguém liga. Então, mis amigos, ta com aquela fome, quer levar aquele frango assado pro clube, mas não acha classe? T'inquiete pas! Pode levar, leva mesmo! Aproveita e chama os amigos, leva a cervejinha, e se quiser leva o isopor também, porque cerveja brasileira quente, realmente, nem europeu aguenta.

Mas sim, agora explicando o porque da explicação: quarta feira meu amigo que dura 1 semana (oohh) Clément me chamou prum piquenique. Pra vocês terem uma ideia de como o piquenique é uma atividade extremamente praticada aqui na terrinha, eles tem até um verbo! Piquiniquer. Já imaginou se a gente libera um verbo pros farofeiros? Êta que ia ser a festa, ou melhor a farofa! Aí a gente foi fazer um piquenique - a noite - porque aqui pra piquinicar não tem hora, nem lugar, porque a gente foi fazer um piquinique no meio da ponte. oo dó. mas foi legal. tirando a parte que eu tive que abstrair a falta de higiene francesa quando vi o Clément cortar o pão direto no chão, com o queijo quase encostando no tenis. eca. Mas aqui também tem isso: ta no inferno, abraça o capeta; ta na chuva é pra se molhar; ta na frança... já deu pra entender né? Aqui quando você compra um crepe, melhor pagar depois que receber o alimento, porque tem esse negóço de mão que pega no presunto não pega no dinheiro não! Aqui, pegou no presunto, pegou no dinheiro, pegou na massa, coçou a cabeça, pegou no pão etc.

Sexta eu também fui no Caravane com a karina-familia+amigo. O amigo tava meio mal humorado porque ele era fino, e o caravane é rock n' roll então não tem gente fina. E o tipo do amigo era "modelo italiano de propaganda de perfume". enfim. Também foi uma carioca carente com a gente. Ai, uma mulher que conheci no ônibus e que me deu um pouco de agonia porque ela é ligada na tomada. Ai que nervoso que dá. Ela me ligou perguntando que que eu ia fazer. Falei assim, meio gemendo que eu já tinha combinado com uma amiga e... ela "Ah, e eu to convidada?" como você responde uma pergunta dessas? ou melhor, quem faz uma pergunta dessas? Sendo que eu só tinha visto a dita 2x na minha vida e falado menos de 5 minutos em cada vez? Aí eu gaguejei tentando pensar rapido numa resposta. Inutil. apesar de tudo, ela é simpatica. é carioca... a gente dá um desconto... e ela foi embora cedo então nem deu pra enjoar muito do sotaque (que fique claro que não tenho nada contra cariocas - minha familia é toda de lá). Além dessa companhia apendicítica, lá também se encontravam o barman ruivinho (aquele que só a larissa achava bonito). ele nem estava tão feio do que eu me lembrava, mas ele ainda toca as mesmas musicas dor de cotovelo. e o bailarino russo. Dessa vez, no lugar do chinelo, ele usava uma touca, por isso que o amigo da Karina tava nershvoso. O coitado em Paris e a gente levando ele pra ver menino de touca. hahaha também tinha uma mocinha atendendo e o lugar tava cheio de gente. Foi legal, mas na ultima hora, depois de uma certa pressão familiar, a karina resolveu ir embora mais cedo e eu voltei pra casa.

Domingo também foi especial. Domingo eu conheci o jardim da Alice. Um lugar encantado, mágico, lindo. De dar vontade de botar um vestido branco, um batom vermelho, cair no meio daquelas flores e morrer de amor. O jardim da Alice não era bem da Alice, era na verdade do Monet. E era cada flor erótica. Era cada cor. Cada cheiro. Uma onda de estímulos nervosos. Tinha o laguinho, a ponte e as ninféias. E tinha também a casinha dele. Mas o jardim era demais.

A diquinha de moda também tem! Meninos e meninas: a franja é dividida lá na linha final da sombrancelha. É, lá do lado da cabeça, quase em cima da orelha. Pode dividir bem divididinho e jogar tudo pro outro lado, do jeito que der. E as cores da estação são o laranja abóbora, o roxo beringela e o azul petróleo.

O resumão da semana também tem! Descobri o erotismo das flores e que farofa de rico tem outro nome. Depois de achar a música de A Deriva na internet, tenho escutado repetidamente, incessantemente. E cada vez é um arrepio novo, uma vontade de ler todos meus livros de uma só vez, e de usar todos meus perfumes, de escrever, de fazer um filme, de desenhar, de chorar, de dançar, de correr. Outro dia no trem, um rapaz lia uma partitura e balançava a cabeça. a musica estava toda dentro dele.

Hoje o email foi mais curto.
Profitez,

13/06/2012

journal FV

paris tem cheiro de saudade...


13/09/09
Ois malvados!

Hoje, devido a falta de respostas, ao inferno astral e a tpm, declaramos greve! no journal de voyage. Nós (eu e a pomba gira) da redação do journal estamos revoltadas com a falta de amorsh e atenção dos nossos leitores. Somados os outros fatores, é insuportavel continuar com esse semanário! Agradecemos a compreensão, au revoir!



Ah ta, que eu ia dar esse prazer pra vocês né! Mudei de idéia, vou escrever sim sobre a semana 5 dessa vidinha. E vai ser insuportavel, tendo em vista o meu estado de fervor emocional. Culpem o inferno astral. 

Comecei a semana levando bronca do homi do Ru. Não, não era o mafioso. O verdadeiro Ru abriu finalmente. Não é tão grande quanto o da Unb, mas chega a ser mais bagunçado. Tem opção demais de comida, e a cada uma muda o preço, aff, e cada fila vai prum lado, ê-ê, pelo menos não tem aquelas catracas! Mas a bronca não teve nada a ver com isso. Foi porque me deram um bife cru. Aiai, não, não sou exigente, o boi tava tão vivo que não dava nem pra cortar! Uma coisa nojenta. Aí pensei umas 5x se valia a pena ou não ir lá pedir pro cara me fazer esse favor. Sim, favorzíssimo, porque a obrigação dele era me servir um bife, ninguém disse tragável ou não. Enfim, tomei o guts necessário e fui. Enfrentei a fila de japas/coreanos/americanos. O homi, já de olho no meu prato cheio, veio perguntando o que é que eu queria afinal! Disse eu "sr. err, será que err, dava pra err, passar mais o bife, err..." aí ele começou a resmungar, e eu no err... e ele resmunganu. Minha sorte é que eu só entendo 1/3 do que eles falam, então fiquei sorrindo e agradecendo, e o homi resmunganu. Uma chatice. Próxima vez pego o macarrão que ainda era mais barato. Acabou que joguei metade do boi mal passado fora, porque a má vontade do homi conseguiu amargar a comida todinha!

Aí pra me adoçar, fui com a karina + familia no museu da boneca. Num bequinho, um museuzinho. Uma coisinha. Com bonecas de 1800 e uma exposição temporaria da barbie. já deu pra imaginar né, só tinha mulher e criança. De repente a gente esbarrava nuns caras. Faz parte. Muito bacana. Ah sim, e tudo isso debaixo de uma chuva bizarra. Aí caminhei pelas ruas de paris com Karin+baby e descobrimos umas travessas mágicas. Travessa de bolo? Não, aquelas passagens de uma rua para outra... Mas mágica tipo a do Harry Potter? Não, mágica tipo lindinha. Eram umas travessas com umas lojas de doces, de brinquedos, de miniaturas, com umas livrarias de cinema e artes em geral, uma coisa! De dar vontade de virar mendigo pra morar ali!

N'outro dia comprei um chip pro meu celular! Agora vocês também podem me enviar mensagens, e pra quem é murrinha eu dou a dica: vai no skype e lá na opção de telefonar tem uma opção de enviar mensagem! CUSTA MENOS DE 30 CENTAVOS, NÃO TEM DESCULPA! Nesse dia também comprei uns brinquinhos, porque estou me sentindo muito peixe fora d'agua nessa terrinha. Aí fiquei vendo a moda mudar de estação e eu ficar com as roupitchas de sempre... me dei esse luxinho e me fez bem. Também comprei meu casaco de inferno, digo, de inverno, mas aí não foi luxo, foi necessidade mesmo.

ah sim, também entrei na campanha adote um amigo! Agora eu ando com um cartaz pendurado nas costas escrito "hugs free". Mentira, mas o francês me ligou, ou seja, 'beijos te ligo' não é necessariamente da cultura francesa, e me adotou como amiga! Ai que alegria, agora eu tenho um amigo que já dura 3 dias! O nome dele é Clement. Ele é engenheiro de bonde e ator nas horas vagas. A gente foi numa peça de teatro. Num lugar lindo, que ficava num buraco. Tudo que é lindo nessa cidade fica num buraco (a descontar a torre eiffel). Um teatrinho, parecendo meio improvisado, mas muito confortável. Vimos volta ao mundo em 80 dias. Comedia quase pastelão, porém bem montada, com ótimas soluções de cenografia e um figurino completo! Isso foi na quinta. Comentei sobre um festival que ia até domingo de curtas metragens e ele foi comigo no sábado. Também num lugar lindo que ficava num buraco. Era tipo um centro cultural pequeno, mas que ao lado tinha esse restaurante com jardim de inverno e tudo, além de musica boa. No meio dos curtas tinha um brasileiro. Um dos melhores. Chamado Muro. Um filme de Tião. também fui nesse festival na sexta. Foi num parque bem interessante, com uma pedra enorme do meio de um laguinho, e no meio da pedra tinha uma ponte de madeira que dava lá na ponta, onde tinha um coreto. Uma coisa de romântico, mas eu estava sozinha então não foi tão romântico assim, e eu nem subi na tal pedra, então foi menos romântico ainda. E nessa solidão toda eu tremia. Tremia de frio, que nem vara verde. Achei que ia morrer. Até ver um vendedor ambulante de cobertor. não, não era uma miragem, mas era a salvação. Não hesitei em gastar módicos 4 euros pela minha sobrevivência. Passados o frio e a solidão, já que o bom cobertor aqueceu até meu coração, comecei a fazer rimas de alegria. Mentira, não faço nada alegre, muito menos rimas, porque estou de tpm em pleno inferno astral. Vê se pode alguém ficar feliz e fazer rimas num estado desses.

Aí domingo foi o primeiro domingo do mês, entón aproveitamos (eu e mamadi) para ir num museu de graça! Fui no Quai Branly - de ashte ezótica. Dessas da Áfffrica, da Oceania, da Índia... até a Argentina foi considerada ezótica, menos o Brasil. Tá, fomos contemplados sim, com um mísero cocarzinho - desses de peninha de periquito - e uma lança. O QUE? Tinha até roupa de índio americano, máscara de índio canadense, e do Brasil o que? Um mísero diadema de periquito! E é na praia de quem que eles vem se banhar?! Ahn? E ainda ficamos pro final da exposição, justo quando todo mundo está exausto, passando batido pelas coisas de tanta preguiça. Agora me pergunta se alguém vê o nosso diadema?! Deixa que eu mesma respondo: duvido! Eu quase que não vi! E olha que fui coisinha por coisinha lendo nas etiquetas o lugar de onde elas vinham, só pra me orgulhar, e quase perco das vistas nosso diademazinho de peninha de periquito. Enfim. Também tava tendo uma exposição temporaria do tarzan, mas não foi tão legal.

Hoje fui com a Karina - familia na universidade. Me disseram que não estávamos inscritas. Um nervoso. Fomos n'outro lugar resolver essa pendência, que obviamente não se resolveu. Fiquei 1h numa máquina de xerox tirando copias. Eu mesma tirando as cópias. Quase a Mulher que copiava. No mais foi assim a semana.

Ah sim, semanário passado faltou a diquinha de moda, entón, seguem várias neste aqui para compensar: meninos, podem botar o sapatinho pra fora do armário. Aqui, mais que o allstar e o keds, é sapato com tudo. calça jeans, social, bermuda e vá lá com o que mais vocês conseguirem. Para as meninas, sandalinha gladiador. Para os dois, aqueles fones de ouvido grandes e sem fio, sabe, modernões, que é pra mostrar que você é antenado nas novidades musicais. Também vale ter sempre à mão um celular desses mais específicos e coloridos de tocar musica. 

Bom, e dessa até Janes Joplin duvidava, a moda hippie está com toda nesse inverno. Blusões folgados, com mangas boca de sino, estampa miuda e coletinhos à la Cruela Devil (é cada um que dá até pra por nome: fifi, mimi, lulu e por aí vai), sandalinha rasteira, corinho no cabelo, bolsinha de franja. Já deu pra entender né? 

E pra terminar (podem rir de alivio, meus caros, o email está no final, mas quem ri por último, ri melhor) o resumão: esses últimos 3 dias fez menos frio. O sol tem sido corajoso e apontado entre as nuvens. Na fila outro dia tinha uma família: mãe, pai e no seu ombro, a baby girl. E enquanto batucava na careca do pai, a filha lia nos lábios da mãe "i love u" e respondia "no i love u more" e depois trocavam beijos e abraços. Essa semana quero ir ver o filme do Zé do Caixão que vai passar num festival de filmes bizarros, chamado - no bom e velho ingles(?), Embodiment of Evil. Hoje um mendigo passava por mim cantarolando quando pesquei "le collier qui brille au soleil" e quando me dei conta, o colar que brilhava no sol era o meu. Paris é uma cidade de muitos cheiros, já disse Grenouille de O Perfume. Em uma mesma rua você vai passando e sentindo as nuances. Tem cheiro salgado de pão, e azedo de gente; tem um cheiro específico da linha do metrô que eu pego pra ir pra casa (numero 4) que me lembra uma assadeira de biscoitos quente. Mamis diz que é fuligem. Toda moeda tem duas faces.

HA HA HA