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28/09/2017

Journal BXVII

- continue remando! alguém gritou ao longe.
então eu entendi. é o barco que leva a gente pra casa.

07/01/2014

das mil cartas de amor do tempo

meu caro senhor,

a certeza dentro de mim é tão grande que nem toda turbulência do mundo me dirá que estou errada. os abutres contornando o céu prenunciam tempestade. sim, a que nós criamos e que agora nos consome. a que eu criei e que agora me consome. talvez seja isso afinal. eu não vi o raio que nos, que me partiu. todo dia eu penso nas mil cartas de amor que te escreveria, que te escrevo diariamente. toda noite eu durmo esperando raiar o dia em que não te verei mais nos meus sonhos. 

todo dia é dia do teu nome, é dia do teu rosto. te dedico cada hora, cada minuto, e se por um acaso me deslembro, é o tempo que você precisa para ser mais um pouco dentro de mim.

mas algumas musicas me desenterram de você, te desenterram de mim. me vejo cravando os dedos no coração, enchendo as unhas de terra e te puxando lá de dentro, rasgando pele, me salvando. e é durante essas notas que eu retomo meus minutos, minhas horas, minha memória, uma a uma, gota a gota.

e ainda que cada linha, cada corda arrebentada, cada letra molhada, sejam para você, e serão até eu esquecer, eu sei que é o tempo quem conta as histórias. então sento na pedra, os pés dentro d'água, e espero o vento levar sua sombra. eu sei que o sol já não queima, então sento na pedra, os pés dentro d'água, e espero o vento levar sua sombra.

08/08/2013

journal FXXIV

penso no desregramento, busco meu perdão, mas a uva sussurra no meu ouvido: ...  desejo  ...  é sierva maria que está ao meu lado. cavo a fruta com o dente verde. goza a gota de veneno, goza a língua, cada vez mais molhada. penetra lentamente, fura a carne, desmancha a boca. carlos estaria orgulhoso. 

foi o vento trazendo flores queimadas em delírio, esse vento que leva ao esquecimento, que sopra em direção ao mar, que me trouxe de volta do mergulho profano. mas era o afogamento nas idéias que me faltava. escrevê-las é a minha redenção.

sonhei que nadava com minha mãe em um rio de crocodilos, que dentro do saco de comida se instalavam milhares de casulos de vermes gordos, que pintava flores em tela e corpo. éramos amantes perfeitos. os óculos se quebravam em um abraço, e os olhos abriam de saudade.

caminhei pela ilha deserta em busca de uma praia perdida. um coelho branco me mostrou o caminho. encontrei um pedaço d'água. lavei meus pés do pecado, mas a videira vingava no meu coração, tinha sede. molhei o corpo até a barra do vestido, depois sentei-me em uma pedra para secar: o sal conservaria as idéias. deixei que o mesmo vento que vencia as borboletas me levasse de volta para casa.

estava meio assim, mas enchi de graça com a praça vermelha. praça do sol deveria ser seu nome. enquanto a pedra ardia, a água era azul cor de olho, as mulheres tinham o corpo livre, e os palhaços beijavam mãos vazias. lugares lindos transformam terças feiras em sábados. foram tantos cheiros... porque tantos cheiros? viajei com cleópatras e angélicas. o amor me acompanhou, venceu fronteiras agarrando-se na janela de um trem.

o terço pendia do pescoço da mulher de gordos seios. era a fé que penetrava nos recônditos da carne. mesma carne essa que sonhava o vitrinista ao vestir o manequim. mesma carne essa que envenenava meu dente.

a subversão trouxe a menina vestida de céu. eu poderia passar horas contando as estrelas de seu corpo. cheirava a lavanda e a papel. voltou, abriu o livro, abriu o olho: a cidade que lhe falta não existe. é feita de saudade, tem cheiro de chuva e cor de tempo. está dentro dela. é uma quimera.

24/11/2012

o gozo III

pele macia, carne rija. quanto mais a memória afunda, mais quente a carne endura. e assim vai, água e desejo. levanta, onda furiosa! lava esse corpo de saudade… mas finda em espuma fina, que o meu coração é porto.

02/11/2012

sopro, sol da manhã

amor tranquilo não é amor de estátua. amor de estátua é pipoca, pedra e silêncio. amor tranquilo é ponta de sorriso, coração quieto. é sem mistério, sem segredo. sopro, sol da manhã. as estátuas ruem duras, rasgam pele. amor manso é nuvem: evapora, matando devagar.

31/10/2012

portas e janelas

eu pensei na pele que enruga, no tempo, e na água. quis escrever um journal inteiro sobre o amor, mas as palavras me vestem melhor por dentro. lembrei de um poema antigo e querido que é sempre novo. meus poemas-oração. quando a música tocou, me vi em paris, naquela cidade que só existe nos meus sonhos. sonhos de vidro. sonhos de flor queimados no papel, cobertos de nuvem e saudade. quis brigar com o coração porque ele ainda não aprendeu a fechar a porta. quis chorar o desencontro, mas o silêncio me manteve quieta. eu também esqueço as janelas abertas... e é por elas que entram a luz, a chuva e o vento.

19/09/2012

sombras, fantasmas e quereres

hoje descobri o teu passado. e aquelas velhas sombras que eu guardava em mim voltaram. quero te receber no agora, no aqui presente. quero te receber sem medo. sem medo dos teus - e meus - amores perdidos ou inacabados. sem medo do desencontro futuro. quero te receber com a simplicidade do dia a dia, do sorriso calmo, com a certeza de um amor tranquilo.

01/06/2012

de tudo que me alimenta e me corrói

sou feita de imagens. sons, cheiros, peles e memórias. como um filme, só que nos filmes tudo é romântico. como é estranha a inocência... foi aí que o tempo parou. e eu não vi a chuva, quer dizer, o corpo. eu só vi o corpo. a fome, a dor, o frio. Godard, o corpo é o limite! mas a esperança nasce e renasce todos os dias. e a água está sempre lá. aí a gente vai se descobrindo... aos poucos. basta um pouco de escuro, e tenho o universo na ponta dos dedos. mas eu sei que um pouco de luz também faz bem. ainda estou esperando minha cabeça explodir. do se gre do do de se jo do de se jo do se gre do. faço questão que você não entenda. é preciso aprender a desconhecer.

22/08/2011

o gozo

a água correu seu corpo por dentro e por fora
a lágrima correu seu corpo por dentro e por fora
até virar tempestade
embaçar
escurecer
até não saber mais onde é o que


tu caches une tempête, il m'a dit
sim, ela aprendeu a chover por dentro

05/05/2011

derrame cerebral

a chuva entrou no meu quarto pela janela do meu corpo. a gotinha correu o vidro como uma estrela cadente. fiz um pedido. quanto mais eu dentro do mundo, mais mundo dentro de mim. vazamento do ser. pedi pra chorar lá fora e não dentro de mim, pra verter no coração dos outros, não no meu. pedi pra ser aquilo que sempre quis. pra parar de ouvir aquela música, pra que ela parasse de falar comigo, pra que meu cérebro voltasse a si. quis me embriagar de pol rémy e vomitar poesia. poesia tripenta, dessas guardadas, revirando o estômago na ressaca. maldita insônia lúcida, maldito corpo cansado. a chuva entrou no meu corpo pela janela do meu quarto. a gotinha correu o vidro brilhando com pressa. tremelicando, deixando rastro de lesma.

05/12/2010

ouriço do mar

e essa sede tão estranha... quis arrancar meu útero com os dentes. meu útero bicorno.  foi uma coincidência eu trocar meus órgãos de lugar? o pequeno epíploon pulsando. a mariposa farfalhando. presa dentro do copo, presa dentro de mim. e o veneno destilando. sonhei que era perseguida por um leão e mordida por uma cobra. tive medo de morrer, acordei. freud explica. aqueles narizes naqueles pescoços: mariposa na lâmpada. aquela alegria, aquela raiva, aquela tristeza. aquele medo e o amor, tudo junto e misturado. eu quero gavetas! eu quero separadores de gavetas! eu quero caixas e etiquetas! cabides! quero organizar meu quarto! meu armário!! minha cabeça!!! e aí eu pensei em maneiras de mudar minha vida. fiquei na dúvida entre dormir, acordar e fingir que tudo não passou de um sonho, e falsear minha morte, mudar de nome e de país. me disseram que eu era um ouriço do mar. lembrei da maldade infantil, que tirava sangue junto com o leite da mãe. pensei no derrame cerebral, na inundação do mundo. e aí a noite acabou. acordei na hora em que cheguei no instituto butantan. talvez devesse me chamar Luisa.