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Mostrando postagens com marcador vida. Mostrar todas as postagens
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28/08/2022

entrei no balé para aprender a dançar com meus demônios ou journal BXVIII

entrar em contato com a dor: estava na dúvida se ia encará-la ou distraí-la com uma série fofa engraçada. num ponto de virada peguei o computador e cá estou, muitos anos depois, de frente para a página em branco. a tal página em branco... que equivale ao silêncio, ao vazio... àquilo que nego e fujo com tanta força que meu corpo até colapsa. talvez a música da série fofa engraçada de ontem tenha feito algum efeito de mobilização para encarar o medo. outras músicas - e algumas venho ouvindo obsessivamente nos últimos dias - também me fortalecem de um jeito estranho: entro em contato com meus sonhos. dói, mas de um jeito não triste. vira e mexe falo delas em alguns parágrafos guardados. esbarrei em um agora há pouco: "ouvindo música voltei em lembranças felizes e tristes que me mergulharam em uma melancolia arrastada. meu corpo guarda tantas coisas que sinto que vou explodir. tristezas profundas, amores, desejos, histórias, vontades," o trecho, escrito em 2019, acabava com vírgula, esperando o que seria escrito em seguida. 3 anos depois acho que a melhor escolha é deixá-lo terminar com a vírgula mesmo, afinal, os finais abertos são os melhores justamente porque nos suspendem. e os sonhos só existem no flutuo. pés no chão são da ordem da terra, da raiz, do palpável, que também é bom, mas muitas vezes duro e dolorido. na montanha russa dos sentimentos desses dias senti muita saudade de paris, talvez por isso eu tenha voltado ao journal. sinto saudade da imagem que construí de mim mesma. lá foi um tempo em que entrei muito em contato com o vazio, com o silêncio, o medo e a dor, mas de algum jeito consegui segurar tudo com a mão. moldei uma bola e ela me acompanhou durante meses. esqueci muita coisa, mas moldar a bola com a mão me deu um poder do qual lembro e tenho saudades. venho tentando reencontrar esse poder. medo e saudade, inclusive, se parecem em algum nível sensorial. música, música, me salva! me faz olhar pra dentro e ver minha força. vozes internas - e externas - me dizem que os dedos nas letras são parte do caminho, mas às vezes sinto que ainda estou andando com as pernas amarradas. hoje um fio arrebentou, expurgada pelas letras posso voltar à série fofa engraçada.

28/09/2017

Journal BXVII

- continue remando! alguém gritou ao longe.
então eu entendi. é o barco que leva a gente pra casa.

08/08/2014

journal BXV

eu poderia passar a tarde toda naquele banco, desenhando árvores nos meus sonhos. o vento seco faz trincar a pele. a folhinha rola na pedra, tem som de besouro. volto pelo caminho das azaléias. sinto que falta alguma coisa. o celular, meu amigo, minha companhia de almoço. ele, mais sábio do que eu, demorou-se mais por lá. fui buscá-lo sem medo de sujar o sapato na lama ou de levar uns pingos de chuva da torneira vazante. não desço os olhos do céu. o pássaro negro, enorme, plana lento, quase imóvel, no azul. é como a morte. volto pelo caminho das azaléias. o vento seco faz arder os olhos. antes de entrar no escritório, visto o casaco para guardar o sol.

10/09/2013

o ciclo da areia

hoje meu avô vai para o mar. justo hoje, o dia em que eu saí da terra, meu avô volta a fundir-se com ela. deixa corpo para virar água, vento e areia. justo hoje, o dia em que me distancio dessa matéria primordial, dando um passo em direção à ela.

08/08/2013

journal FXXIV

penso no desregramento, busco meu perdão, mas a uva sussurra no meu ouvido: ...  desejo  ...  é sierva maria que está ao meu lado. cavo a fruta com o dente verde. goza a gota de veneno, goza a língua, cada vez mais molhada. penetra lentamente, fura a carne, desmancha a boca. carlos estaria orgulhoso. 

foi o vento trazendo flores queimadas em delírio, esse vento que leva ao esquecimento, que sopra em direção ao mar, que me trouxe de volta do mergulho profano. mas era o afogamento nas idéias que me faltava. escrevê-las é a minha redenção.

sonhei que nadava com minha mãe em um rio de crocodilos, que dentro do saco de comida se instalavam milhares de casulos de vermes gordos, que pintava flores em tela e corpo. éramos amantes perfeitos. os óculos se quebravam em um abraço, e os olhos abriam de saudade.

caminhei pela ilha deserta em busca de uma praia perdida. um coelho branco me mostrou o caminho. encontrei um pedaço d'água. lavei meus pés do pecado, mas a videira vingava no meu coração, tinha sede. molhei o corpo até a barra do vestido, depois sentei-me em uma pedra para secar: o sal conservaria as idéias. deixei que o mesmo vento que vencia as borboletas me levasse de volta para casa.

estava meio assim, mas enchi de graça com a praça vermelha. praça do sol deveria ser seu nome. enquanto a pedra ardia, a água era azul cor de olho, as mulheres tinham o corpo livre, e os palhaços beijavam mãos vazias. lugares lindos transformam terças feiras em sábados. foram tantos cheiros... porque tantos cheiros? viajei com cleópatras e angélicas. o amor me acompanhou, venceu fronteiras agarrando-se na janela de um trem.

o terço pendia do pescoço da mulher de gordos seios. era a fé que penetrava nos recônditos da carne. mesma carne essa que sonhava o vitrinista ao vestir o manequim. mesma carne essa que envenenava meu dente.

a subversão trouxe a menina vestida de céu. eu poderia passar horas contando as estrelas de seu corpo. cheirava a lavanda e a papel. voltou, abriu o livro, abriu o olho: a cidade que lhe falta não existe. é feita de saudade, tem cheiro de chuva e cor de tempo. está dentro dela. é uma quimera.

25/03/2013

journal BXVI

ficou ali alguns minutos, esperando tomar coragem para sair do carro e enfrentar o dia. sabia que assim que abrisse a porta, o tempo e a vida a engoliriam. o dia acabaria em um piscar de olhos e não teria realizado nem a metade dos seus sonhos. sabia que no instante em que abrisse a porta, deixaria aquele silêncio quente com cheiro de plástico para trás, e daria de cara com a solidão que a tomava por dentro, que o radinho a fazia esquecer. não era uma escolha fácil. não era uma escolha.

aquecendo as mãos na xícara de chá

sinto que a última gota de qualquer coisa que havia no meu coração acaba de secar. finalmente o vazio virou nada. a flor de plástico não pulsa, não seiva, não saliva mais. viro os olhos para fora. a temporariedade da existência torna tudo ridículo: o bigode bem cortado, o pirão de peixe, o salto alto e o batom fúcsia. de concreto, só a fome. sete reais e cinquenta centavos de fome. de concreto, só o arroz e o feijão que brotam da terra, de onde tudo veio, para onde tudo vai. incansáveis, buscam consertar as coisas. agendas político ambientais, econômicas e sociais, como se houvesse luz no fim do túnel. é o que chamam de esperança por um futuro melhor, que ninguém aqui vai ver. e ainda põem a culpa em pandora. retiro a gordura da carne, sustentando a hipocrisia da boa alimentação, que ninguém sabe qual é. um dia é o tomate e o azeite, no outro, o ovo e o chocolate. disseram certo, somente a beleza salvará o mundo, mas a beleza está nos olhos de quem vê, e por aqui estão todos cegos com suas convicções de pedra, quando na verdade, tudo não passa de nuvem.

14/01/2013

journal BXIII

ela estava ali, sentada no meio daquelas pessoas. todas aquelas pessoas conversando barulhentas e ela. era como se estivesse à parte, como se visse tudo de outro lugar. será que já tinha se tornado uma delas? ela morria de medo disso. se vigiava o tempo todo para não assimilar os trejeitos, as roupas, os cabelos. ela morria de medo de se tornar uma daquelas pessoas porque sabia que quando isso acontecesse, o mundo a engoliria. mas do jeito que estava ali, roupinha listrada, jeitão de menino, ela ainda era uma criança cheia de sonhos. ainda era ela que tinha fome de mundo, e não o mundo dela. enquanto estivesse ali, à parte, ela ainda sentiria o gosto do arroz e do feijão. ela ainda saberia o cheiro da chuva e a cor da saudade.

02/01/2013

journal RI

de pintos, peitos e periquitas a praia é abundante. crianças roliças e mulheres roliçantes rolam na areia. e nessas passagens simbólicas algumas coisas ficaram, como o menino que ainda puxava um carrinho bip bip pela calçada, ou o ruivinho que corria na areia, a sunga quase tão vermelha quanto seus cabelos. o resto passou. os bancos de praça, os travestis, os chinelos, os cachorros e o baby wipe. muita coisa passou pela pele, pouca coisa virou pinta. os vickings, piratas e ciganos, por exemplo, sempre mancham. paguei 10 reais por poesia barata. o suco acabou em um gole. o passo tinha cheiro de tinta, cheiro de francia. a revolução eram borboletas de papel sujando as ruas. o centro estava tranquilo e nem era domingo. me perdi em uma travessa cheia de histórias de amor. comecei tímida, incerta. depois fui me empolgando. poesia boa não tem preço. as fachadas da memória foram restauradas, tudo por dentro mesmo, porque aqui a coisa medo ainda ronda. olhei para omar e cansei do amor. fui embora sem dar tchau. desisti da minha cama e quase engasguei com a uva da formatura. acho que lido melhor com dinossauros do que com baratas.

21/09/2012

construí castelos de areia perto do mar

construí castelos de areia perto do mar. no meu sonho de criança eu não tinha medo da água. ou era a água o medo que movia?

22/07/2012

journal DI


A viagem começou quando tudo dava errado e, horas antes do embarque, eu ainda nem tinha fechado a mala. 

Entrexames, dei meu sangue. Duas vezes. O líquido vermelho, quase preto, pingava da agulha, esperando para ser destrinchado em outras mil coisas pequenas que são o corpo. Fluido divino que corre e dá vida. Depois veio o eletro cardiograma. Meu coração é uma linha. Pulsa duas vezes para cima e uma para baixo. O médico era apenas uma voz arranhada atrás do biombo. Esperava um senhor gordo, de cabelos brancos e semblante grave, mas me apareceu um senhor baixo, com apenas uma barriga redonda, nariz de tubérculo, bigode amarelado e dois olhos grandes enquadrados por um fundo de garrafa. Como um personagem de Mary & Max. Tinha uma risada divertida e parecia doido. Sua assistente, uma mocinha bem novinha com cara de professora de primeira série também parecia doida. Me explicou o ritmo dos corações. Disse que o meu batia diferente, não era normal, mas também não era doença. Fiquei feliz. Quando me perguntou sobre meu cabelo, disse que era porque meu coração batia daquele jeito. Riu engraçado.

Aí, no último dia, tudo resolveu se resolver. O dinheiro entrou na conta, paguei minhas dívidas, imprimi todos os documentos, fechei a mala. Com um saco de remédios calmantes, realizei todo o ritual do medo. O avião tremia. Meu corpo, rígido e parado. Chegou a dar um choque depois que a tensão passou. A senhora sentada ao meu lado tinha cheiro de naftalina. Já estava com enxaqueca antes mesmo de levantar voo. Aquele cheiro de armário velho. Usava um conjunto verde pastel e segurou um terço durante toda a viagem. A luz que vem de fora é de cegar, mas o mar de nuvens é calmo. O problema é o medo. E tudo é dentro. A descida, a vertigem e a naftalina. Pouso. Quase choro tamanha alegria viver. Ainda no aeroporto de São Paulo encontrei um novo amor. Sou dessas. Mas ele sentou de costas pra mim. É assim a vida.

As pessoas tem umas caras tão desenháveis... o homem de sobrancelhas arqueadas: viver é um espanto. Já o americano balança os pés sobre a mala, ouvindo sua música em grandes fones de ouvido. É preciso desenhar rápido para que não me veja... HAHAHAHAHA definitivamente ele não é assim! É bonito, tem os olhos azuis, cabeça raspada e um cavanhaque loiro. Ao lado de um homem grande e ruivo está sentado um velho que dorme. O homem acorda no tempo de um desenho.

Mais atrás um pouco, um homem tão careca, tão adunco, tão alvo que parecia de outro mundo. Coincidentemente estava no mesmo hotel com seu romance. Já o meu amor ficou para trás. Cheguei a vê-lo buscando as malas, mas eu não existia para aqueles olhos. Tantas belas opções de companhia e eu fiquei com o velho gordo. É assim a vida. O amigo bonito e equivocado de outros dois belos e equivocados sentou longe e sozinho, enquanto os outros passaram a viagem falando essa língua estranha, meio bronca, que é o alemão.

Máquina mole de metal, treme-se toda no ar. É tão grande, tão pesada... é como se os rinocerontes voassem. Nuvens cortadas em linha na boca do metal. A cidade virou maquete e o medo passou. O velho sentado ao meu lado tinha cheiro de álcool. E a música me fazia pensar em todas as pessoas lindas que fazem parte da minha vida. Existe vida melhor que a minha? Façamos uma caipirinha!

O velho dormia... todos dormiam... aquela máquina flutuante era quase um sonho de metal...

Depois que o medo passou e voltou e passou e voltou e passou pela última vez, chegamos na terra das salsichas. Terra dos bosques druidas. Engraçado esse universo, seis meses lendo sobre os bosques sagrados e eis me aqui, emaranhada em um deles. Terra das gramíneas, das flores silvestres, das berries brotantes assim, como pingos de sabor, dos patos, do verde. Dos caracóis, lesmas, sapos e cogumelos. Terra dos vovozinhos e dos bebês.

Os patos nadam para lá e para cá, deslizantes. Todos cheios de si. O lago é um reino. Aqui os bichos falam alemão também. E os cachorros são ursões. Eu queria alguma coisa para desenhar que não fossem as plantas. As plantas são muito difíceis de se apreender em linhas sem cor. O bosque sagrado também não se revela na fotografia profana. Aqui o ar é bom. É fresco e verde também. Um vovô com óculos de esqui me pergunta alguma coisa em alemão. Língua dura. São anos de dureza. Uma história inteira de dureza que criou uma casca nesse povo que é tão mole por dentro. É por isso que comem muitas salsichas. Queria saber se minha inspiração tinha acabado... Disse-lhe que pelo contrário, estava mesmo era tomando um ar, cansada de tantas idéias. Os patos, assim como as pombas, os bebês e vovôs, também gostam do sol.

Em Garmisch, além das flores, das berries, dos patos e das lemas, também tem montanhas. Dessas grandes de cartão postal, como se tivessem feito recortes de revista e montado uma paisagem: campos de flores silvestres, dessas que nascem sei lei nem documento, brotando cada uma em seu lugar, numa iquebana das mais refinadas. Comendo as flores subversivas estão as ovelhas. Todas balindo em um coro feliz. Algumas árvores pingam aqui e ali, e casinhas de madeira com lenha empilhada ao lado afundam, rodeadas pelas paredes pedregosas confeitadas de neve. E o bosque druida. Foi isso que eu guardei.

O primeiro trem era um comboio de retirantes. O segundo percorreu paisagens paradas. Todas as paisagens alemãs são paradas. Não-mais-tempo.

Munique entrou para a lista de cidades em que eu moraria. Pequena cidade grande ou grande cidade pequena. Daquelas que dão maior ansiedade: as cidades grandes anseiam não caber, as pequenas faltam caber, as grandes pequenas grandes jogam para lá e para cá com o nosso querer viver. É preciso muita firmeza de espírito para aguentar. Eu falo, mas não sei se tenho a estrutura.

Em Munique eu me apaixonei 10 vezes. Duas por mulheres. Foi engraçado reconhecer alguns telhados, curvas e espaços... mas tudo era de alguma maneira diferente, como se eu fosse uma outra pessoa, e sou, ainda que a mesma.

Conheci os anonimos que constroem o mundo sem saber. Uma ignorância que parece inocente. Sei que no fundo tudo é corrompido. Guardei para mim a revelação.

Eu olho para as pessoas e tenho vontade de viver uma grande história de amor com cada uma delas. Mas que história é essa que nem eu consigo contar?

Parto sozinha em uma manhã vazia de gente e cheia de azul crepúsculo. Algumas luzes piscantes e dorminhocas, e o vento frio. A pomba, também sozinha, cantava o amanhecer encolhida em um telhado. “Leve apenas o que conseguir carregar” a frase me gritava. O problema é que sempre cabe mais um sapato.

O terceiro trem era silencioso. A falta da noite começou a bater. O homem ao lado coçou os olhos como uma criança... o sono é mesmo um sopro de inocência. Uma nuvem cobriu todo o caminho, transformando a viagem em um sonho embalante.

A primeira pessoa que conheci em Nürnberg foi o Aladin. Bosniano simpático. Vai ficar na cidade por dois meses trabalhando durante o verão. Não pensa em voltar para o seu país. Quer viver sua história de amor em Berlim.

Antes das nove da manhã, um doido já balbuciava coisas para mim na padaria. Depois de uma caminhada, a bolsa pesada me fez voltar para o hotel e esperar a hora do check in observando meus colegas.

A árvore brotava sozinha no meio do rio. O homem cantava sozinho o hino de um reino antigo. Todos o olhavam como um louco. Mas era um gênio!

Nürnberg é o lugar com mais belezas por metro quadrado que eu já visitei. Quero casar com o garçom do café. Abrirei um cinema, farei a feira nos sábados, e no domingo darei comida aos patos, vivendo uma vidinha feliz.

A cidade vai se desdobrando, uma rua após a outra, como as páginas de um livro. Em cada esquina uma surpresa. My irregular heart beats. O mercado tem cheiro de açúcar, olivas, pão, salame e lavanda. 

As flores são em bola e os cataventos, prateados.

Aqui tudo acontece ao mesmo tempo. O casamento italiano, o programa de culinária e as cabras, os bodes e as ovelhas. Peludos e fedidos. Quero todos.

Aqui também acontece o amor, como sempre. As pessoas entram e saem de mim como se eu fosse um trem. Descobri como dói ser trem. E aqui elas também vão embora dentro de vagões. Rapidamente a linha some no ponto de fuga deixando apenas um rastro de saudade. As lágrimas, românticas e impetuosas, subiram como uma onda. Um sentimento bobo as trancou na garganta. Desaguei silenciosamente com os horrores do holocausto, mas logo em seguida um vovozinho otimista me deu uma aula de esperança sobre a humanidade e eu voltei a acreditar.

Os caminhos dessa vida são tantos... se cruzam e descruzam tantas vezes... damos voltas, voltas e mais voltas até encontrar o que procuramos... O que é meu está guardado. Saberei contar a minha história de amor quando ela acontecer.

12/07/2012

journal FXII

procurando o journal número 12 para postar aqui, redescubro que ele nunca existiu. sim, nunca existiu, porque deveria existir apenas hoje, 12 de 2012, dia em que volto para Paris, dois anos depois que parti. volto para uma vida que já não é mais minha. volto para um passado que agora é futuro. volto para mim. para me reencontrar essa página em branco. welcome ghosts!

04/07/2012

journal FIX

são dias de pensamentos, e não linhas...


05/10/09
Ois pessoas!

É seguindo meus princípios de rebeldia que digo agora: cansei desse journal! Toda vez é a mesma coisa, um emailzão metido a engraçadinho! Será que estamos condenados a nos ser pro resto de nossas vidas? Mas que chatice! Por isso, nesta edição especial número 09 do ano 09 vou tentar dar uma bola na mesmice e escrever uma coisa diferente. Pelo menos um pouquinho diferente vá, assim, só pra dar uma enganadinha na rotina. Que venha o brainstorm! Assim, tudo jogado mesmo, que nem loja de roupa a quilo!

Na verdade eu penso tantas coisas ao longo dos dias, que vou esquecendo de acordo com o fluxo que segue. Sai da frente que atrás vem gente! Por exemplo, se eu tivesse feito o colégio nessas terras, teria passado com mais facilidade na matéria de física. O vai e vem dos vagões do metrô e do bonde fazem a gente prestar mais atenção no deslocamento dos corpos.

As mulheres e os homens também, a cada dia ficam mais feios, ou menos bonitos. Talvez eles nunca tenham sido realmente bonitos, mas aquele inegável fator europeu nos cega assim de primeira. Depois que o deslumbre, ou miopia europeia, passa, aparecem as olheiras, os desgrenhados, os fedores, as unhas sujas, as roupas rasgadas, as peles estragadas e aquele jeito estranho, um jeito que assim, de primeira, deslumbradamente, é muito convidativo, mas que na verdade tem um certo fundo amargo, mal humorado, chato, frio e mesmo superficial de ser. E é todo mundo no seu mundinho, com seus ipods, malas e sacolas pra lá e pra cá, como uns caracóis apressados, esbarrando, às vezes pedindo licença, sempre bufando, sempre reclamando (um pouco como eu aqui agora) e olhando torto um pro outro.

No final das contas dá tudo na mesma. Agora tenho medo de pegar piolho. Fico sempre atenta pra ver quem senta no banco atrás do meu. As escadas são uma constante. E tudo passa, até a uva passa. O vento passa, o frio passa, o bonde passa, as bicicletas passam, as pessoas passam, eu passo. A minha existência nessa cidade vai ser tão significativa para os parisienses como a de alguém que está em Brasília e que nenhum de nós conhece, nem vai vir a conhecer, ou como a nossa própria existência para o resto do mundo. Quanta crise! Mas é assim. Eu vejo umas pessoas que nunca mais vou ver na vida passando pra lá e pra cá dentro dos vagões, virando uns borrões vagos na memória.

E os cachorros. Grandes, magros e feios. Pequenos, gordos e peludos. Todos metidos. Eles passam também, cada um com seu dono. Ou seriam eles os donos? Cara de um focinho do outro, como no início do desenho dos Dálmatas. Por isso que tem um monte de cocô na rua. E mendigos. Cada um com um bichinho no colo. Cada um com uma cara mais de abandonado do que o outro, pra ver quem desperta mais piedade. E esta também passa por uma crise existencialista. A ajuda nunca é realmente bem vinda. Os poucos centavos são sempre seguidos de algumas bufadas ingratas.

E tem os barulhos que passam no dia a dia. As sirenes das ambulâncias que não deixam um ponto de silêncio na cidade; As sirenes dos metrôs que aceleram os passos e estimulam alguns saltos à distância; As risadas dos jovens alegres, estrangeiros ainda encantados, talvez míopes, que fazem piquenique aqui no jardim em frente (ou pelo menos faziam, já que o outono é o começo do fim das alegrias veraneias); Os traços surdos das musicas que as pessoas escutam em alto volume nos fones de ouvido; Umas buzinas nervosas perdidas aqui ou ali.

Os bebês loirinhos, negrinhos, japinhas, bebês por todos os lados também passam. Nos carrinhos, nos cangurus, nos moisés. Bebês e babies de todos os tipos, pra lá e pra cá, com seus bichos, mamadeiras, todos chupados, pendurados, olhando pra lá e pra cá, tentando entender as luzes, os barulhos e as caras. Alguns sorriem, outros desconfiam. E mais mendigos, já com as idéias avariadas, que babam e cheiram esquisito, uma mistura de cigarro, cerveja e poeira, que gritam ou dormem nas estações. Os jovens pais, os descolados, os badboys, as badgirls, os velhos finos, outros nem tanto, os business men, as business women, os muçulmanos, os africanos, os brasileiros. Todos no fundo mais caretas do que a gente imagina, e sempre passando, borrando na minha memória. Os jornais, os poketbooks e os fichários. Mais do que caderno, vale mesmo são as folhas soltas, perdidas cada uma num buraco da bolsa, voando pelo chão quando tudo vai por terra. Os sapatos passam pra lá e pra cá, um mais feio que o outro, mais velho, ou mais sujo. E o medo de atravessar no sinal, porque o que abre pra um nem sempre fecha pro outro. Também tem os doces nas vitrines, a coca-cola quente e os pães debaixo do braço. Os molhos, os cremes, as massas. A falta do sal. Do alho. Do feijão e da mandioca.

Espremo as idéias (como as laranjas brasileiras são espremidas para virarem os populares sucos de laranja engarrafados que eles vendem por aqui) para ver se consigo algum sumo de história a mais para contar. Sinto que falta alguma coisa. Eu penso em tantas coisas ao longo dos dias, não é possível que sejam só essas linhas... são dias de pensamentos, e não linhas. Infelizmente não temos muito poder sobre as idéias. Elas vem e vão, pra lá e pra cá, passam como as pessoas, os cachorros, os sapatos e os bebes. Como eu. E como os sentimentos. Que vem e que vão assim, e a gente nem ve direito (ou seria nem sente direito?). É raiva, ciúmes, medo, inveja, tristeza... Quanta coisa ruim! Mas também tem saudade, amor, alegria, bem querer. E eles vão se misturando um no outro. E vão diluindo um no outro, virando um o outro. E daqui a pouco tudo passa e a gente sonha a noite. Eu sonho com morte, assassinato, suicídio e vampiros. O vampiro era o Jonny Depp então não foi lá um pesadelo.

Além dos ipods, dos livros, dos barulhos e da uva, também passam as horas. Corridas como os caracóis esbarrentos. Escorrem pelo dia e a gente nem vê direito (ou seria nem sente direito?). E agora já é meia noite aqui. E sete aí. Uma maluquice esse fuso-horário. Meu dia termina quando o de vocês começa. E vice-versa. Quem é que tem mais tempo? Eu que começo o dia mais cedo ou vocês que terminam o dia mais tarde? Sobra o sentimento de inutilidade, de desperdício.

Sobram também as ruas, as placas e os mapas, todos já mais familiarizados com a minha memória fotográfica. Vira e mexe me reconheço num lugar e já sei chegar no outro, só de lembrança. Assim, num piloto automático sem gps. Ainda um orgulho para uma brasiliense. E esse email existecialista, talvez um tanto pessimista, ou um tanto melancólico, mas nem por isso depressivo ou triste (de acordo com o dicionário informal fornecido pela internet), vai chegando ao seu final. Paris será sempre a cidade das luzes, o pólo da moda e do cinema intelectual. Paris será sempre Paris. E eu, pelo visto, também estou condenada a me ser pro resto da vida, porque mesmo tentando dar uma bola em mim mesma, acabo tropeçando nos próprios pés. O journal continua um emailzão metido a engraçadinho... No final das contas dá tudo na mesma, nada muda, nem a surda muda.

21/06/2012

like wild horses over the hill

queria escrever sobre alguma coisa bonita pra comemorar. pra acreditar. nos arquivos só tristeza, choro e saudade. que tudo se exploda! que é dos fantasmas que eu me alimento. o dente, a fruta, o cheiro. veneno. tudo é pipoca. nuvem. tudo é água, tempo e silêncio. eu aprendo, eu aprendo. e é correndo que eu chego lá.

01/06/2012

de tudo que me alimenta e me corrói

sou feita de imagens. sons, cheiros, peles e memórias. como um filme, só que nos filmes tudo é romântico. como é estranha a inocência... foi aí que o tempo parou. e eu não vi a chuva, quer dizer, o corpo. eu só vi o corpo. a fome, a dor, o frio. Godard, o corpo é o limite! mas a esperança nasce e renasce todos os dias. e a água está sempre lá. aí a gente vai se descobrindo... aos poucos. basta um pouco de escuro, e tenho o universo na ponta dos dedos. mas eu sei que um pouco de luz também faz bem. ainda estou esperando minha cabeça explodir. do se gre do do de se jo do de se jo do se gre do. faço questão que você não entenda. é preciso aprender a desconhecer.

24/05/2012

journal BVIII

no ônibus, um jovem feio. tinha os cabelos cor de fogo, cachos incandescentes. constrangedoramente luminosos. poderia causar uma revolução, mas faltavam-lhe alguns quilos, e malícia nos olhos. era explosão potencial apenas. quando lembrei de sierva maria, um cachorro sarnento se coçou na minha frente. o cão está sempre lá, à espera, mas de nada adianta se não for mordido. aquele jovem nunca será sierva maria. seus cabelos nunca borbulharão, pois falta-lhe o veneno essencial.

o amor caiu nos meus pés e o dente era pipoca. do meu lado esquerdo, com 1,60, pesando 45 quilos, Princesa Encantada! Princesa gosta das flores e dos bichos. Penteia os cabelos todas as noites antes de dormir com uma escova macia e passa perfume nos pulsos. Enquanto espera pelo príncipe, Princesa escreve poemas de amor. E esta noite, aqui, nesta arena, Princesa enfrentará... do meu lado direito, medindo 1,80 e pesando 85 quilos, ela, que nunca perdeu uma luta, a feroz, a incrível, a perversa Puta Indomável! Puta gosta de tomar uma breja vendo televisão. troca suas próprias lampadas e abre potes de picles sem colher. Puta desistiu do amor quando comprou sua primeira bicicleta. grande disputa esta noite, senhoras e senhores, quem vencerá esta batalha? façam suas apostas!

prestei atenção na violência das folhas que caem das árvores. os jardins da unb nunca estiveram tão bonitos. será que é porque é despedida? corpoflor corpoluz pensar em outra coisa que não o amor corpoflor corpoluz pensar em outra coisa que não o amor corpoflor corpoluz pensar em outra coisa que não o amor corpoflor corpoluz pensar em outra coisa que não o amor corpoflor corpoluz corpoflor corpoluz corpoflor corpoluz corpofloreluz pensar em outra coisa que não o amor

a vida pulsa. a memoria grita. o homem tinha cheiro de rapadura. quero escrever sobre as mesmas coisas sempre. às vezes sinto que minha vida é o sonho de sierva maria. se assim for, a promessa não é das melhores. será que meu cabelo borbulha no final?

25/04/2012

até o coração parar de bater

explosions in the sky. escuta, a noite fria como o vento do mar. os olhos turvos de sonho. tudo é luz e movimento. tudo é dente, loucura e tempo. é vida acontecendo. correr, correr, correr. ficar na boca da água e sentir o cheiro da tempestade. amar, amar, amar. nascer e morrer várias vezes no mesmo dia para sempre. repetir, recomeçar.

13/04/2012

journal BV, journal FXXVIII, journal, journal!

hoje uma borboleta pousou em mim. o drama durou uma vida inteira, e apenas um segundo. é engraçado como o tempo das idéias e dos sentimentos é diferente do tempo físico. é como aqueles velhinhos que andam sozinhos na rua: é uma outra vida.

é da ordem do milagre querer alguém que te quer igual, uma amiga me disse. não quis acreditar.

eu gosto mais de paris durante a noite. quando o ar é fresco e nebuloso. com todas aquelas lâmpadas sombreando a cidade. quando as pessoas são vultos negros dobrando a esquina. eu poderia ser um poeta boêmio do século xix. eu e mais dois amigos, andando torto pelas ruas, cantando odes à cidade luz, cheios de ópio, brandy e vinho correndo no lugar do sangue. nos inspirando amar e odiar.

nós seremos sempre sozinhos, um amigo me disse. chorei porque sabia que era verdade.

as mãos de balzac são quadradas e grossas. os dedos todos do mesmo tamanho com pontas arredondadas e unhas pequenas. mãos atarracadas. lembram um pouco as minhas. mas foram aquelas mãos sem charme que o fizeram balzac.

give me love and light everytime you think of me... then drop it, um filme me disse. tento praticar.

sonhei que ia pescar peixe boi, mas pareciam mais sapos do que peixes, ou bois. da rede eu tirava um cachorro pequeno e nervoso.

um dia desses fiquei trancada num quarto de hotel com um mosquito do tamanho da minha mão. quarto do pânico.

noite branca. pessoas na rua. e aquela mulher na cafeteria, colocando gelo dentro de uma garrafa, compulsivamente, com uma colher.

eu ainda me lembro do meu primeiro olhar sobre paris. é engraçado como, quando turistas, a cidade muda nos olhos. as cores, os cheiros, as ruas, tudo tem outra forma. e é isso, eu ainda me lembro com que cor, forma e cheiro paris um dia foi pra mim, mas que agora já não é mais. dois anos depois de escrever esse parágrafo não recordo nada.

em brasília, me deparo com velhos sentimentos. daqueles piores que a gente sempre tem esperança de não reencontrar, mas que no fundinho, fundinho do ser, sabe que ainda vai várias vezes. um deles é a raiva. raiva das pessoas bonitas e das feias que se passam por bonitas. que disco quebrado! que murro em ponta de faca! que saco!

há duas semanas comecei meu processo de revolução. apaguei fotos, bloqueei facebook, deletei telefones. morreu. enterrei tudo vivo. agora se vejo um fantasma, fecho os olhos. é feio, é triste, mas é a solução. me afundei no trabalho. sem tempo para pensar, nem para lembrar. o cansaço me jogava na cama, de um sono direto para o outro. depois cortei o cabelo: sai nhaca! pintei as unhas. comprei bijuterias novas. o próximo passo é uma massagem. esse parágrafo remonta 2010. dois anos se passaram e eu nunca completei meus planos. tudo novo de novo. me apaixono uma noite. sofro mil.

pensei em escrever sobre meu avô velho. 90 anos. bateu aquele medo da morte. não o fiz.

as pessoas me perguntam se estou bem. parei de responder, acho hipócrita. ninguém me chamou de chata. depois de um tempo experimentando sem sucesso, voltei a fingir ser uma pessoa normal e feliz. também não funcionou.

nesses tantos anos sem journal... foram tantos assim? no aeroporto, trocando olhares com desconhecidos, viajantes, passageiros, para lá e para cá com seus pezinhos e rodinhas. todo mundo anda, todo mundo fala, todo mundo com pressa, com importância de viver. fechei meu mundo com música. a falta da internet me reaproximou da minha memória, e cá estou acrescentando algumas palavras nela. foram tantos anos... dois. isso é muito? não falei do meu avô e meu avô se foi. quantas malas! malas maletas malinhas mochilas bolsas sacolas. parem agora de desfilar na minha frente, vocês me deixam ansiosa! não falei do meu avô e meu avô se foi, sem mais, deixou só um bilhete. coisa  mais romântica os bilhetes e as cartas... me comovem.

nesses tantos anos... meu avô. e muitas viagens. minas goiânia goiás velho. rio são paulo. brasília. nesses tantos anos... muitos amigos novos. alguns inimigos também. que maravilha! era isso que faltava: um pouco de sal, de emoção, de veneno, de crueldade. paris me ensinou a ser fria, chata, intolerante e venenosa, mas me abriu o peito de maneira que todos agora entram e saem de mim como se eu fosse um trem. descobri como dói ser trem. 2011 foi só dor. será que foi mesmo? dor é aprendizado. aprendizado é vida. quantas cicatrizes! no caso de rufus, as tatuagens são internas, um cartunista me disse. me reconheci. descobri que transformo dor em poesia. mas não é a mesma coisa? e o amor? ah o amor... o amor não usa corrente de ouro, nem óculos de lentes cor de besouro. o amor não tem barriga. o amor é corvo assassino, é gato preto, é melancholia. o amor não tem voz de taquara rachada. o amor, ah o amor... a... m... m... m... o... o... orrrrr... que palavra mais lábio... mais beijo!

cintos, botões, rendas, celulares, cadarços, mais botões, gravatas, bolsas, zíperes e canetas. é isso o aeroporto: lugar nenhum de ninguém, com cadeiras, lenços, bebês e relógios. o beijo durou uma vida inteira, e apenas quatro anos. o amor ainda acontece sem acontecer. meu terapeuta me ensinou a diferença entre dor e sofrimento: dor é momento, coisa rápida e física, sofrimento é dentro, coisa criada, dura o tempo que você quiser. o journal acontece todo dia, todo minuto na minha cabeça sem parar. aqui no aeroporto, a minha vida está batendo na porta, querendo acontecer. quem sabe em algumas horas...

retiro meu fone de ouvido: que silêncio! uma bailarina está sentada atrás de mim. linda. tem o nariz adunco e os olhos azuis, cabelo curto, liso e preto, amarrado num rabicó. é magra e parece lacrimejar. fala um inglês carregado no telefone. começa uma de minhas músicas preferidas. foi bom enquanto durou, bailarina, foi um prazer. o vovô na cadeira de rodas espera ser removido de um lugar inconveniente. meu vovô. meus vovôs. um aqui e um lá.

se essa vida de agora, que já não é real, e é, fosse um filme, eu deixaria o computador na cadeira e sairia dançando pelos corredores de embarque, saltaria as malas e desviaria das pessoas apressadas dando risada da delícia que é mover o corpo. um videoclipe já bastaria. pina, sua linda! quero escrever sobre minha vida, e minha vida não é uma monografia. poesia e só poesia! alguém, por favor? chega dessas outras chatices todas. tiro uma craca da pele. a música acaba. o avião pousa. quero só alimentar a alma, o bolso e a barriga. quero cheiro e toque. quero cor e luz. quero vento e sabedoria. amém.

31/03/2012

journal BIV

o ventinho frio da manhã,
o sol por entre as folhas.
os passos no ritmo da música,
e a declaração de amor na calçada.
até o bêbado sorri banguela.

tudo brilha, como se nada, e nada falta.