Translate

Mostrando postagens com marcador veneno. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador veneno. Mostrar todas as postagens

15/04/2014

feitiço para conceber fantasmas, ou poema para a lua

em noite de lua sangrenta, 
sobre terra fértil e molhada ainda da chuva,
pousa teus pés descalços 

ouve o som que o vento leva
que o silêncio é a voz da saudade

em noite de lua sangrenta, 
com a unha do gato, negro como o céu 
sob o qual te escondes,
fura o dedo

e derrama teu coração
quente, vermelho, e vivo 

como foi o amor um dia

em noite de lua sangrenta,
com voz de cigana,
canta o nome
três vezes,

que do recôndito mais oculto da carne 
ele ressurgirá.

10/10/2013

dos bruxos

olhou no fundo dos meus olhos e disse: "você irá viver um tórrido caso de amor". assim que proferiu estas palavras, pisou em um rato e partiu.

15/03/2013

eu, lambuzando os dedos e a boca

eu, lambuzando os dedos e a boca naquela carne macia e suculenta como fazem os animais. como faz carlos. é o veneno da descoberta: tudo que vive, tripa. e dente.

24/11/2012

journal DII, journal FXII


os dois reflexos estavam de costas um para o outro. as pessoas foram ficando pelo caminho, deixando os dois cada vez mais a sós.

o quarto trem foi musical. vim sentada ao lado de um descendente de viking. seus traços eram suaves, tinha a delicadeza de uma pluma. a carreira de bárbaro definitivamente não lhe cabia.

o zíper da bolsinha da senhora estava quebrado: punctum. janis joplin me dava vontade de saltar do vagão em movimento e sair correndo pelos campos. campo, campo, campo, casinhas de telhado vermelho amontoadas em volta de igrejinhas pontudas e simpáticas. é isso a alemanha.

em stuttgart eu me apaixonei três vezes, uma por uma mulher. esses meus amores de verão... passam na minha frente tão rápido quanto as férias. um deles ainda olhou para trás. eles vem, roubam meu coração com sua beleza e vão embora, levando a minha história de amor junto com eles.

a inocência tem som de risada de criança. os pequenos cantam sem vergonha do mundo. onde é que nos perdemos?

os carrinhos amassados eram brinquedos velhos amontoados num canto qualquer.

o homem sem dentes lia sem atenção um livro sobre artes marciais. tinha os olhos azuis de um louco.

o quinto trem foi um avião. dor e sofrimento são duas coisas diferentes.

paris fez bater um sentimento forte de mundo. são tantas pessoas, tantas vidas, tantas histórias andando pra lá e pra cá... é quase insuportável imaginá-las acontecendo.

paris também me fez pensar sobre o tempo parado e o tempo que muda. quem é que decide? depois de dois anos longe, esperava um reencontro cheio de angústias e saudades. de silêncios e fantasmas. de dentes. mas era como se eu nunca tivesse partido, como se eu tivesse a cidade inteira dentro de mim e nada mais me fosse misterioso, por mais segredos que as ruas ainda me escondam, e eu sei que escondem. esperava inquietação, anseio, e foi tudo ao contrário, quase que sem brilho, pipoca. revirou toda a tripa do querer viver. ajna.

ce matin, j'ai appris que les amours imaginaires resteront toujours imaginaires. le silence par contre, est réel. il sera toujours là.

pensei que não se pode ter o azul, o amor e a beleza juntos. mas como escolher?

já de volta, assolada pelo sistema, esquecida das histórias, cansada e ainda inquieta, repenso minhas tripas. eu queria falar da beleza das pedras, que me rasga, e também das nuvens que me evaporam, mas eu mesma já não aguento mais tanto vidro, carne e pipoca. a cidade que me falta não existe. ela é feita de saudade, tem cheiro de chuva e cor de tempo. a cidade que me falta é como a minha história de amor.

02/09/2012

mes amours imaginaires

de amores vazios o poeta está cheio. por isso tantas palavras... sentimento mesmo é matéria, está na carne. e a carne não se escreve. a carne só sabe o que é dela: cheiro, luz, gosto, som e dor. enquanto o tempo me ensina a esperar, vou reescrevendo minha história de amor com a estátua. por isso todo dia eu aprendo o que é silêncio, o que é dente, pipoca e nuvem. depois esqueço.

05/07/2012

refúgio

romper memória:
aninhar nas curvas do corpo
perder na sombra dos cabelos
esquecer do tempo e de mim
morrer na gruta da saudade

01/06/2012

de tudo que me alimenta e me corrói

sou feita de imagens. sons, cheiros, peles e memórias. como um filme, só que nos filmes tudo é romântico. como é estranha a inocência... foi aí que o tempo parou. e eu não vi a chuva, quer dizer, o corpo. eu só vi o corpo. a fome, a dor, o frio. Godard, o corpo é o limite! mas a esperança nasce e renasce todos os dias. e a água está sempre lá. aí a gente vai se descobrindo... aos poucos. basta um pouco de escuro, e tenho o universo na ponta dos dedos. mas eu sei que um pouco de luz também faz bem. ainda estou esperando minha cabeça explodir. do se gre do do de se jo do de se jo do se gre do. faço questão que você não entenda. é preciso aprender a desconhecer.

23/02/2012

para o bem e para o mal

a saudade apertou num lugar invisível. não era tripa, não era carne. era vazio. uma vez mário me ensinou sobre a gratidão: obrigada, eu nunca mais serei a mesma. já não sou. para o bem e para o mal. dói porque é preciso transformar o amor em outra coisa. e eu já não sei mais o que é ódio e o que é desejo.

28/09/2011

diabetes

coraçãozinho de açúcar
vou fazer uma carreirinha
e cheirar o meu amor

coraçãozinho de açúcar
desmanchou no copo d'água
agora é só gostinho doce

24/09/2011

haters gonna hate

tudo aquilo que eu quero e que você não é, versus tudo aquilo que eu não sou e que você quer ser.
what the hell?! vomits her mind.
tudo aquilo que eu quero ser, e que eu posso, e não sou.
do querer mais sem querer querendo mesmo sem poder.
sem medo dos ajustes do ser.
i can take it to the next level ba-by.
seguir a si mesmo. promise i'll be kind, but i won't stop.
a festa estando dentro de si. como se nada, e nada falta.
a idade lhe caindo bem.
keep on dancin'. but i don't feel like dancin', no sir, no dancin' today.
se encontrar e se dar um perdido:
- olha, fica aí que eu já volto. só vou ali comprar cigarros.
- mas você não fuma!
- espera que eu já volto!
found out i was losing my mind
como fugir se sou eu que me espero?
- é só deixar a outra pra trás. vai com a que foi!
is the music to blame?
la rage qui monte le coeur et les yeux e vira ira, possessão do estômago virar do avesso, e o coração parar de bater, e os ouvidos não escutarem mais. de la tête aux pieds, ton corps ne te répond plus: só ele.
if you feel it, let it happen, i'm not alone.
da lhama quero só uma gota. quem sabe um quarto de dietilamida do ácido lisérgico.
fico com o som bem alto - i'm on the right track baby - direto nos ouvidos. tudo virando uma grande bola de nada num grande buraco negro mental chamado universo.
at this point i gotta choose, nothing to lose.

talvez um pouco de leveza... but i don't really care about,
i-i-i wanna go-o-o all the wa-ay-ay... wo-oh-oh!

13/08/2011

pra salvar a alma

Uma Ira - Clarice Lispector

- "Esta" - se disse o homem ajoelhado como antes de ir para a guerra - "esta é a minha prece de possesso. Estou conhecendo o inferno da paixão. Não sei que nome dar ao que me toma, ou ao que estou com voracidade tomando, senão o de paixão. O que é isso que é tão violento que me faz pedir clemência a mim mesmo? É a vontade de destruir, como se para este momento de destruir eu tivesse nascido. Momento que virá ou não, a minha escolha depende de eu poder ou não me ouvir. Deus ouve, mas eu me ouvirei? A força de destruição ainda se contém um instante em mim. Não poso destruir a ninguém ou nada, pois a piedade me é tão forte como a ira; então eu quero destruir a mim, que sou a fonte dessa paixão. Não quero pedir a Deus que ele me aplaque, amo tanto a Deus que tenho medo de tocar nele com o meu pedido, meu pedido queima, minha própria prece é perigosa de tão ardente, e poderia destruir a mim e a imagem de Deus, que ainda quero salvar em mim. No entanto só a Ele eu poderia pedir que pusesse a mão sobre mim e arriscasse queimar a Dele. Não me atendas porque meu pedido é tão violento que me atemoriza. Mas a quem pedir, neste rápido instante de trégua, se já afastei os homens? Afastei os homens, fui fechando as doçuras de minha natureza a cada golpe que recebi, e as doçuras negadas foram se enegrecendo como nuvens simples que vão se fechando em escuridão, e eu abaixo a cabeça à tempestade. Como seria a ira divina, se esta minha me deixa cego de força total? Se esta cólera só destruísse a mim. Mas tenho que proteger os outros - os outros tem sido a fonte de minha esperança. Que faço para não usar esta onipotência que me toma? o que me direi eu? Senão a verdade, senão a verdade. Só outra coisa eu conheci tão total e cega e forte como esta minha vontade de me espojar na violência: a doçura da compaixão. Só isto ainda posso tentar por no outro prato da balança - pois no primeiro prato está o sangue e o ódio ao sangue e o riso ao sangue que dói. Que estou querendo? Quero que a cada uma de minhas dores corresponda hoje e agora um ato de cólera.

"Mas eu sei o que foram as minhas dores. A cólera, é fácil expô-la. Mas a dor, esta me envergonhava. Porque minha dor vem de que não saí feliz de meus outros pecados mortais. Minha violência - que é em carne viva e só quer como pasto a carne viva - esta violência vem de que outras violências pecadoras que se pareciam tanto com um direito meu... No começo elas se pareciam tanto com minhas maiores suavidades. Eu tinha nascido simplesmente e também simplesmente quis ir tomando para mim o que queria. E a cada vez que não podia, a cada vez que era proibido, a cada vez que negavam, eu sorria e pensava que era um manso sorriso de resignação. Mas era a dor que se mascarava em bondade. Eu sabia que era dor errada diante de Deus, e, pior, diante de mim, quem quer que eu seja. Cada vez que meus pecados não venciam, eu sofria, mas sem me sentir com direito de sofrer, e tinha que esconder não apenas a dor, mas sobretudo o que causara a dor. O que estava sendo pisado em mim? na minha verdade de outrora, que estava sendo pisado em mim? Os pecados mortais.

"Os pecados mortais chamavam em mim por mais vida, e clamavam com vergonha, os pecados mortais em mim pediam o direito de viver. Minha gula pelo mundo: eu quis comer o mundo, e a fome com que nasci pelo leite, essa fome quis se estender pelo mundo, e o mundo não se queria comível. Ele se queria comível, sim, mas para isso exigia que eu fosse comê-lo com a humanidade com que ele se dava. Mas a fome violenta é exigente e orgulhosa, e quando se vai com orgulho e exigência o mundo se transmuta em duro aos dentes e à alma. O mundo só se dá para os simples, e eu fui comê-lo com o meu poder e já com esta cólera que hoje me resume. E quando o pão se virou em pedra e ouro aos meus dentes, eu fingi por orgulho que não doía, eu pensava que fingir força era o caminho nobre de um homem e o caminho da própria força. Eu pensava que a força é o material de que o mundo é feito, e era com o mesmo material que eu iria a ele. E depois foi quando o amor entrou pelo mundo e me tomou: e isso já não era a fome pequena, era a fome ampliada. Era a grande alegria de viver - e eu pensava que esta, sim é livre. Mas como foi que transformei, sem nem sentir, a alegria de viver na grande luxúria de estar vivo? No entanto, no começo era apenas bom e não era pecado. Era um amor pelo mundo quando o céu e a terra são de madrugada, e os olhos ainda sabem ser tenros. Mas eis que minha natureza de repente me assassinava, e já não era uma doçura de amor pelo mundo, era uma avidez de luxúria pelo mundo. E o mundo de novo se retraiu, e a isso chamei de traição. A luxúria de estar vivo me espantava na minha insônia, sem eu entender que a noite do mundo e a noite do viver são tão doces que até se dorme, meu Deus. E a água, na minha luxúria de viver, a água se derramava pelos dedos antes de chegar à boca. E eu amava o outro ser com a luxúria de quem quer salvar e ser salvo pela alegria. Eu não sabia que só o meio-termo não é pecado mortal, eu tinha vergonha do meio-termo. Os pecados são mortais não porque Deus mata, mas porque eu morro deles. Eu é que não pude arcar com os pecados mortais. O que não consegui com eles, é isso o que hoje me violenta e a que respondo com violência. Os meus pobres meios canhestros não me conseguiram nem terra nem céu, e a fúria me toma. Ah, mas se por um instante eu entender que a fúria é contra os meus erros e não contra os dos outros, então esta cólera se transformará nas minhas mãos em flores, em flores, em coisas leves, em amor. Eu ainda não sei controlar meu ódio, mas já sei que meu ódio é um amor irrealizado, meu ódio é uma vida ainda nunca vivida. Pois vivi tudo - menos a vida. E é isso o que não perdoo em mim, e como não suporto não me perdoar, então não perdoo aos outros. A este ponto cheguei: como não consegui a vida, quero matá-la. A minha cólera - que é ela senão reivindicação? -  a minha cólera, eu sei, eu tenho que saber neste minuto raro de escolha, a minha cólera é o reverso de meu amor; se eu quiser escolher finalmente me entregar sem orgulho à doçura do mundo, então chamarei minha ira de amor. Tanto temi jurar-me para sempre com essa primeira palavra que mal ouso pronunciar (amor), que fugi para a violência e para os olhos ensanguentados da paixão. Tudo, tudo por medo de me prostrar aos Teus pés e aos pés anônimos do "outro" que sempre Te representou. Que rei sou eu, que não se curva? Tenho que escolher entre a quebra do orgulho e o amor-correnteza da ignorância e da doçura. A minha verdade antiga ainda me serve? Deus proibiu os sete pecados não por exigência de perfeição, mas apenas por piedade de nós, de mim que, como os outros, também tento não ser Dele e tento não ser dos outros, e eu sei que os outros são Ele. Neste instante tenho que escolher entre amar ou ter ódio. Sei que amar é mais lento, e a urgência me consome. Cobre minha fúria com o Teu amor, já que também eu sei que minha ira é apenas não amar, minha ira é arcar com a intolerável responsabilidade de não ser uma erva. Sou uma erva que se sente onipotente e se assusta. Tira de mim a falsa onipotência destruidora, não deixa que a ferida que abriram em mim signifique ferida aberta por Ti, faz com que neste instante de escolha eu entenda que aquele que fere está no mesmo pecado que eu: no orgulho que leva à ira, e portanto ele fere assim como estou querendo ferir só porque não acredita, só porque não confia, só porque se sente um rei espoliado; ajuda aos que sofrem de ira porque eles estão apenas precisando se entregar a Ti. Mas como Tua grandeza me é incompreensível, faz com que Tu te apresentes a mim sob uma forma que eu entenda: sob a forma do pai, da mãe, do amigo, do irmão, da amante, do filho. Ira, transforma-te em mim em perdão, já que és os sofrimento de não amar."

06/06/2011

eu mesma verme, corvo, serpente

e tu, criatura construída, monstro, quem és tu?
fui eu que te botei dentro de mim?
ou tu que rompeste a cútis do meu cérebro?
quem é o alimento dessa loucura?

15/05/2011

meio de maio

descobrir tesouros guardados e esquecidos no fundo de um armário. #ameliepoulainfeelings. ter um fim de tarde digníssimo com as amigas. chorar as mágoas, destilar o veneno, sofrer o amor. ler poesia e horóscopo, beber vinho, champanhe, coca-cola, comer pipoca e brigadeiro, ser linda, sempre! e na noite errante, errar nômade, bater de porta em porta até acertar a casa certa. voltar naquele limiar do dia, quando ainda é noite e não mais. se sentir jovem e velha. dormir com uma vista de marie antoinette pintada por van gogh: um lago cinza azulado, emoldurado de árvores negras e um horizonte roxo acinzentado pingado de pontos amarelos, logo acima faixas de amarelo gema, lilás, magenta, verde menta pastel dissolvendo num azul cor de lago. uma nuvenzinha cinza e baça no alto, assim, meio se desmanchando... e em um movimento, no tempo de uma frase, nuvens cor de espumante se comprimindo até virarem uma grande massa rosé cortando o céu em faixa. uma música fim de festa sujando o silêncio da aurora e uns passarinhos arriscando timidamente anunciar o início do fim da semana.

05/12/2010

ouriço do mar

e essa sede tão estranha... quis arrancar meu útero com os dentes. meu útero bicorno.  foi uma coincidência eu trocar meus órgãos de lugar? o pequeno epíploon pulsando. a mariposa farfalhando. presa dentro do copo, presa dentro de mim. e o veneno destilando. sonhei que era perseguida por um leão e mordida por uma cobra. tive medo de morrer, acordei. freud explica. aqueles narizes naqueles pescoços: mariposa na lâmpada. aquela alegria, aquela raiva, aquela tristeza. aquele medo e o amor, tudo junto e misturado. eu quero gavetas! eu quero separadores de gavetas! eu quero caixas e etiquetas! cabides! quero organizar meu quarto! meu armário!! minha cabeça!!! e aí eu pensei em maneiras de mudar minha vida. fiquei na dúvida entre dormir, acordar e fingir que tudo não passou de um sonho, e falsear minha morte, mudar de nome e de país. me disseram que eu era um ouriço do mar. lembrei da maldade infantil, que tirava sangue junto com o leite da mãe. pensei no derrame cerebral, na inundação do mundo. e aí a noite acabou. acordei na hora em que cheguei no instituto butantan. talvez devesse me chamar Luisa.