eu poderia passar a tarde toda naquele banco, desenhando árvores nos meus sonhos. o vento seco faz trincar a pele. a folhinha rola na pedra, tem som de besouro. volto pelo caminho das azaléias. sinto que falta alguma coisa. o celular, meu amigo, minha companhia de almoço. ele, mais sábio do que eu, demorou-se mais por lá. fui buscá-lo sem medo de sujar o sapato na lama ou de levar uns pingos de chuva da torneira vazante. não desço os olhos do céu. o pássaro negro, enorme, plana lento, quase imóvel, no azul. é como a morte. volto pelo caminho das azaléias. o vento seco faz arder os olhos. antes de entrar no escritório, visto o casaco para guardar o sol.
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08/08/2014
07/08/2014
lagrimundo
a minha saudade já não cabe nas palavras
não cabe no meu corpo, não cabe nesse mundo
não caberia nem em uma vida
cabe apenas em uma lágrima
não cabe no meu corpo, não cabe nesse mundo
não caberia nem em uma vida
cabe apenas em uma lágrima
11/02/2014
08/08/2013
journal FXXIV
penso no desregramento, busco meu perdão, mas a uva sussurra no meu ouvido: ... desejo ... é sierva maria que está ao meu lado. cavo a fruta com o dente verde. goza a gota de veneno, goza a língua, cada vez mais molhada. penetra lentamente, fura a carne, desmancha a boca. carlos estaria orgulhoso.
foi o vento trazendo flores queimadas em delírio, esse vento que leva ao esquecimento, que sopra em direção ao mar, que me trouxe de volta do mergulho profano. mas era o afogamento nas idéias que me faltava. escrevê-las é a minha redenção.
sonhei que nadava com minha mãe em um rio de crocodilos, que dentro do saco de comida se instalavam milhares de casulos de vermes gordos, que pintava flores em tela e corpo. éramos amantes perfeitos. os óculos se quebravam em um abraço, e os olhos abriam de saudade.
caminhei pela ilha deserta em busca de uma praia perdida. um coelho branco me mostrou o caminho. encontrei um pedaço d'água. lavei meus pés do pecado, mas a videira vingava no meu coração, tinha sede. molhei o corpo até a barra do vestido, depois sentei-me em uma pedra para secar: o sal conservaria as idéias. deixei que o mesmo vento que vencia as borboletas me levasse de volta para casa.
estava meio assim, mas enchi de graça com a praça vermelha. praça do sol deveria ser seu nome. enquanto a pedra ardia, a água era azul cor de olho, as mulheres tinham o corpo livre, e os palhaços beijavam mãos vazias. lugares
lindos transformam terças feiras em sábados. foram tantos cheiros...
porque tantos cheiros? viajei com cleópatras e angélicas. o amor me
acompanhou, venceu fronteiras agarrando-se na janela de um trem.
o terço pendia do pescoço da mulher de gordos seios. era a fé que penetrava nos recônditos da carne. mesma carne essa que sonhava o vitrinista ao vestir o manequim. mesma carne essa que envenenava meu dente.
a subversão trouxe a menina vestida de céu. eu poderia passar horas contando as estrelas de seu corpo. cheirava a lavanda e a papel. voltou, abriu o livro, abriu o olho: a cidade que lhe falta não existe. é feita de saudade, tem
cheiro de chuva e cor de tempo. está dentro dela. é uma quimera.
24/05/2013
11/04/2013
25/02/2013
das tintas que mancham
a noite chorou de saudade, molhando a rua e transformando o vidro da janela num céu cheio de estrelas. escrevi meu amor na palma da mão que era pra guardar na pele.
20/02/2013
07/02/2013
o tempo e a morte eram apenas mais uma história no caderno
a nuvem era um fio de luz, um raio cortando o céu da manhã. o amor era um beijo no rosto, e a beleza era para sempre
21/01/2013
24/11/2012
journal DII, journal FXII
os dois reflexos estavam de costas um para o outro. as pessoas foram ficando pelo caminho, deixando os dois cada vez mais a sós.
o quarto trem foi musical. vim sentada ao lado de um descendente de
viking. seus traços eram suaves, tinha a delicadeza de uma pluma. a
carreira de bárbaro definitivamente não lhe cabia.
o zíper da bolsinha da senhora estava quebrado: punctum. janis joplin me dava vontade de saltar do vagão em movimento e sair correndo pelos campos. campo, campo, campo, casinhas de telhado vermelho amontoadas em volta de igrejinhas pontudas e simpáticas. é isso a alemanha.
em stuttgart eu me apaixonei três vezes, uma por uma mulher. esses meus amores de verão... passam na minha frente tão rápido quanto as férias. um deles ainda olhou para trás. eles vem, roubam meu coração com sua beleza e vão embora, levando a minha história de amor junto com eles.
a inocência tem som de risada de criança. os pequenos cantam sem vergonha do mundo. onde é que nos perdemos?
os carrinhos amassados eram brinquedos velhos amontoados num canto qualquer.
o homem sem dentes lia sem atenção um livro sobre artes marciais. tinha os olhos azuis de um louco.
o homem sem dentes lia sem atenção um livro sobre artes marciais. tinha os olhos azuis de um louco.
o quinto trem foi um avião. dor e sofrimento são duas coisas diferentes.
paris fez bater um sentimento forte de mundo. são tantas pessoas, tantas vidas, tantas histórias andando pra lá e pra cá... é quase insuportável imaginá-las acontecendo.
paris fez bater um sentimento forte de mundo. são tantas pessoas, tantas vidas, tantas histórias andando pra lá e pra cá... é quase insuportável imaginá-las acontecendo.
paris também me fez pensar sobre o tempo parado e o tempo que muda. quem é que decide? depois de dois anos longe, esperava um reencontro cheio de angústias e saudades. de silêncios e fantasmas. de dentes. mas era como se eu nunca tivesse partido, como se eu tivesse a cidade inteira dentro de mim e nada mais me fosse misterioso, por mais segredos que as ruas ainda me escondam, e eu sei que escondem. esperava inquietação, anseio, e foi tudo ao contrário, quase que sem brilho, pipoca. revirou toda a tripa do querer viver. ajna.
ce matin, j'ai appris que les amours imaginaires resteront toujours imaginaires. le silence par contre, est réel. il sera toujours là.
pensei que não se pode ter o azul, o amor e a beleza juntos. mas como escolher?
já de volta, assolada pelo sistema, esquecida das histórias, cansada e ainda inquieta, repenso minhas tripas. eu queria falar da beleza das pedras, que me rasga, e também das nuvens que me evaporam, mas eu mesma já não aguento mais tanto vidro, carne e pipoca. a cidade que me falta não existe. ela é feita de saudade, tem cheiro de chuva e cor de tempo. a cidade que me falta é como a minha história de amor.
já de volta, assolada pelo sistema, esquecida das histórias, cansada e ainda inquieta, repenso minhas tripas. eu queria falar da beleza das pedras, que me rasga, e também das nuvens que me evaporam, mas eu mesma já não aguento mais tanto vidro, carne e pipoca. a cidade que me falta não existe. ela é feita de saudade, tem cheiro de chuva e cor de tempo. a cidade que me falta é como a minha história de amor.
02/11/2012
era dos descobrimentos II
shhhh... shhhh... shhhh... shhhh...
são só as ondas do meu coração
sinto cheiro de chuva, minhas águas turbulentas
às vezes é bom ter um barquinho
pra perder nos teus olhos
chuva, tem pena!
molha só os meus pés
estou cansada de remar esse barcoração
azul
eu quero um barquinho azul
29/10/2012
19/09/2012
sombras, fantasmas e quereres
hoje descobri o teu passado. e aquelas velhas sombras que eu guardava em mim voltaram. quero te receber no agora, no aqui presente. quero te receber sem medo. sem medo dos teus - e meus - amores perdidos ou inacabados. sem medo do desencontro futuro. quero te receber com a simplicidade do dia a dia, do sorriso calmo, com a certeza de um amor tranquilo.
17/09/2012
sonho de menina
às vezes eu olho pro meu coração e me vejo ainda menina com meus sonhos de criança...
me pergunto se algum dia vou amar daquele jeito de novo
me pergunto se algum dia vou amar daquele jeito de novo
05/02/2012
11/07/2011
da fraqueza da carne
pense nas franjas da tua bolsa, no azul da tua água, nas flores do teu lenço e todo mal passará. a indecência do tempo há de se colocar atrás dos olhos, onde não se pode ver.
03/07/2011
ébria de amor
queria uma canção pra falar da união e da beleza, e compartilhar com os amigos a experiência maravilhosa de hoje. na falta da rima, divido as imagens que me embriagaram nessa noite fria de domingo. assim, jogadas em uma cesta, colha a que quiser: andorinhas sobrevoando o altar. fim de tarde. tecidos brancos, translúcidos, dançando ao vento. bolas de vidro. flores brancas e azuis. margaridas, hortênsias, rosas. caixotes, bancos, molduras, gavetas, espelhos. corações de açúcar. velas, garrafas, champanhe. música e amigos queridos à beira do lago. pérolas, trança e renda, tudo tão lindo... quero um especial, imenso e verdadeiro, desses que doem de tão. desses feitos pra sempre. eu acredito no amor, pronto falei.
27/06/2011
perder-se
pressão nos canos. da fresta sai gotinha. desgarramento sem hora. essa coisa chamada ansiedade. aquela outra coisa chamada música. e ainda a coisa picasso. tudo me desconcentrando. fui apresentada a um quadro. antigo meu, conhecido de outros tempos, depois mesmo de tê-lo dentro de mim. lembrava daqueles olhos. aquele vazio que me revirava as entranhas há anos. anos buscando a resposta da pergunta que não foi feita. vi o vazio olhando pra mim em carne, o mesmo vazio de picasso em tinta. que beleza um quadro vivo. que beleza! ia escrever sobre os surtos, sobre a lágrima, sobre a gotinha de sentimento desgarrada do ser de dentro, sobre a fome, sobre a desconcentração. mas a beleza tem um que de sobrevivência.
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